Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ainda me impressiono com a explosão de Doctor Who no Brasil nos últimos anos. Uma série que até 2012 nunca havia passado na TV aberta1 agora tem seu universo expandido (na forma de livros) exposto em destaque nas vitrines das livrarias. Claro que o nome de Douglas Adams2 ajuda a chamar atenção, mas mesmo assim, um feito extraordinário.

Contando com o 4º Doutor e sua companion Romana II como protagonistas da aventura, Shada começa com uma passagem típica de Adams:

Aos 5 anos, Skagra concluiu sem sombra de dúvidas que Deus não existia. A maioria das pessoas que chegam a tal constatação reage de uma das seguintes formas — com alívio ou com desespero. Somente Skagra reagiu pensando: “Peraí. Isso significa que existe uma vaga disponível.”

Capa do livro

Um parágrafo que capta a essência do ateísmo radical de Douglas Adams, de sua incrível capacidade de tanger as maiores questões da vida com leveza e do melhor humor britânico que caracteriza suas obras (destacadamente O Guia do Mochileiro das Galáxias).

Pela própria temática da história, o livro não é uma obra de humor como o Guia, mas consegue ser pontuado de passagens bem divertidas. Contar com a quarta encarnação do Doutor, provavelmente a mais hilária das versões do Senhor do Tempo contribui bastante.

Quanto ao Doutor e a todo a mitologia entorno do personagem, é muito bem construída a introdução feita ao universo da série. Deixa-se bem claro o que são os Senhores do Tempo, qual o papel do Doutor, quem foi Rassilon etc. e tudo trunfo de não ser maçante para quem já conhece a série. O livro também brinca muito bem com as grandes questões em torno das origens do Doutor, como nesta passagem:

Enquanto [Skagra] assistia, ele acumulou informações a respeito da juventude do Doutor, feitos acadêmicos, laços familiares em Gallifrey e em outros lugares, e as razões exatas para a primeira vez que fugiu de seu planeta natal. Mas tudo isso era irrelevante. Precisava saber quem era o Doutor agora.

Outro ponto interessante do livro é apresentar outro Senhor do Tempo que não o Doutor ou a Romana: o professor Chronotis. Um personagem divertido e interessante, que foge do padrão dos Senhores do Tempo que a série clássica apresentava3.

Chris e Clare foram personagens muito bem trabalhados, de um modo que seria impossível na TV. Romana e K-9 também tiveram muitas chances de ajudar a vencer Skagra. Tudo o desenvolvimento desses personagens foi coordenada bem o suficiente para alcançar a proeza de não ofuscar o Doutor, nem deixar toda a resolução da trama para ele.

Também vale muito citar o vilão da história: Dr. R. Skagra. Uma mente realmente brilhante. Não um daqueles supervilões idiotas que revelam o próprio plano ao tempo todo. Não é um vilão clichê, de risadas diabólicas, que simplesmente quer ser rei do universo4, como esse diálogo entre o Doutor e Skagra deixa claro:

— O maior propósito de todos? — E sacudiu um dedo na direção de Skagra. — Eu sei o que você quer fazer, seu espertinho. Você quer dominar o universo, não é? Já encontrei gente da sua laia antes. A qualquer momento um brilho louco vai se acender em seus olhos e você vai começar a gritar: “O universo será meu!”

Skagra o encarou, perplexo. Obviamente lhe faltava o brilho louco e ele não gritaria.

— Quanta ingenuidade, Doutor. Como a sua visão é patética e limitada. “Dominar o universo”. Que coisa mais infantil. Como alguém poderia dominar o universo?

O Doutor pareceu ligeiramente atingido com isso, mas não se deixou abalar.

— Exatamente! — disse ele. — É isso que fico tentando dizer para as pessoas. É um lugar problemático, difícil de administrar e, em termos imobiliários, não vale nada, porque por definição não teria ninguém para quem vender…

Skagra tem visão suficiente para dedicar o seu plano maligno a tentar impedir que a entropia destrua o Universo como conhecemos.

Como todo supervilão de respeito tem os seus asseclas, Skagra é acompanhado pelos seus Kraags. Monstros que soam horripilantes — e provavelmente seriam ainda mais em tela. Além deles, Skagra ainda tem a companhia hilariante da Nave, uma das inteligências artificiais mais legais que já vi, no mesmo nível que o computador de bordo da Coração de Ouro. Uma personagem que sem dúvida surgiu da mente brilhante de Douglas Adams. Sua presença na resolução da trama é um dos pontos altos do livro.

Skagra tenta tornar seus planos realidades alcançando Shada, a antiga prisão dos Senhores do Tempo. E para isso precisa roubar O venerável e ancestral livro das leis de Gallifrey, um artefato dos Senhores do Tempo que remonta à era de Rassilon. Uma vez em Shada, ele extrairia a mente de Salyavin — antigo “criminoso” de Gallifrey, conhecido como Grande Facínora da Mente, capaz de colocar pensamentos e até outras mentes dentro da mente das pessoas.

Com a mente de Salyavin — que era o Professor Chronotis o tempo todo, uma virada incrível na história — Skagra poderia colocar a sua própria mente em todo o Universo. Uma trama realmente grandiosa, que adiciona muito à mitologia da série, além de usar os melhores conceitos que já faziam parte da mesma. Com cenas como a perseguição das TARDIS no vórtice (um pedaço da arquitetura de Cambridge perseguindo uma cabine de polícia), Gareth Roberts cumpriu o seu objetivo de “produzir algo […] com um escopo e uma visão que teriam sido impossíveis para Doctor Who alcançar em 1979”5.

Excerto

Mesmo eu já tendo recheado a resenha com citações do livro, como fã de Douglas Adams, não posso deixar de destacar essa belíssima homenagem ao escritor que recebeu reconhecimento até de Senhores do Tempo:

[…] — Espere aí… até os Senhores do Tempo iriam reparar numa vitrine vazia na biblioteca, mesmo através da poeira. Se o senhor pegou o livro, o que havia naquela vitrine nos últimos trezentos anos?

O professor deu de ombros.

— Só substituí por outro livro, mais ou menos do mesmo tamanho. Tentei encontrar uma lombada que combinasse perfeitamente, o conteúdo não importava…

— Que livro, Professor? — exigiu o Doutor.

— Ah, um clássico terrestre, de um dos maiores escritores da história do planeta — disse o Professor. — Muito engraçado, muito profundo, queria tanto lembrar o nome, algo sobre pegar carona, e tinha alguma coisa com toalhas, ah, eu me lembro, sim, deixe-me pensar.. sim, claro, era O Guia do Mochileiro das

Ficha técnica

  • Doctor Who: Shada
  • Autor: Gareth Roberts, a partir do roteiro de Douglas Adams
  • Publicação original: BBC Books (2012, Reino Unido)
  • Publicação no Brasil: Suma das Letras (2014)
  • Tradução: Juliana Romeiro
  • Páginas: 345
  1. Com exceção do filme de 1996, que foi exibido durante as madrugadas do SBT no começo dos anos 2000. 

  2. Impresso com mais destaque na capa do livro que o de Gareth Roberts. 

  3. Geralmente figuras autoritárias e arrogantes que querem que o Doutor desempenhe alguma função que não lhe é confortável. E isso quando não querem puní-lo ou colocá-lo em julgamento. Isso sem nem citar os Senhores do Tempo declaradamente malignos, como Mestre, Rani, Morbius etc. 

  4. Apesar de ter sucumpido a essa tentação no fim. Tendo a concordar quando o Doutor diz que ele provavelmente causa esse efeito nas pessoas. 

  5. Citação do incrível posfácio do livro, escrito por Gareth Roberts.