Primeira resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

O sexto livro publicado das Crônicas de Nárnia, O Sobrinho do Mago é o primeiro na cronologia da série de C. S. Lewis e introduz Aslam, o Professor (ainda criança) e explica a origem da Feiticeira e do próprio mundo de Nárnia.

Assim, a obra de Lewis se distingue da maioria das obras de fantasia por ter um conto de criação2 para o mundo paralelo fictício que é apresentado, ao invés de apenas narrar as estórias passadas nele — como faz a maior parte dos escritores. Outro trunfo é a cena da criação de Nárnia, a partir da canção de Aslam, que é encantadora e muito sublime, sendo capaz de emocionar o leitor.

Por outro lado, os personagens não foram muito desenvolvidos, deixando para o leitor pouco material para imaginar como seriam suas ações e motivações, apesar de não terem sido tão pouco desenvolvidos a ponto de impedir uma compreensão, ainda que superficial, de seu comportamento.

Consoante com o seu público alvo, O Sobrinho do Mago é narrado em um tom simples e bastante pessoal, sem tornar a narrativa demasiadamente complexa, mas, mesmo assim, construindo uma estória rica, com cenários e circunstâncias memoráveis.

Também merece ser citado o fim do livro, no qual os problemas de saúde da mãe de Digory são solucionados — proporcionando um final feliz — e que explica a origem de vários elementos dos outros livros das Crônicas de Nárnia, como o Ermo do Lampião e o guarda-roupa.

Considerando todo o exposto, pode-se dizer que em O Sobrinho do Mago C. S. Lewis conseguiu construir uma estória divertida e bem construída, consistente com a continuidade da série a qual faz parte além de ser capaz de entreter e cativar o leitor.

Excerto

O Leão, cujos olhos jamais piscavam, olhava para os animais com dureza, como se fosse incendiá-los com o olhar. Uma transformação gradativa começou a ocorrer neles. Os menorzinhos — os coelhos, as toupeiras e outros do tipo — ficaram um pouco maiores. Os grandões ficaram um pouco menores. Muitos animais estavam sentados nas patas traseiras. Muitos viravam a cabeça de lado como se quisessem entender. O Leão abriu a boca, mas não produziu nenhum som: estava soprando, um sopro prolongado e cálido. O sopro parecia balançar os animais todos, como o vento balança uma fileira de árvores. Lá em cima, além do véu de céu azul que as esconde, as estrelas cantaram novamente: uma música pura, gelada, difícil. Depois, vindo do céu ou do próprio Leão, surgiu um clarão feito fogo (mas que não queimou nada). As duas crianças sentiram o sangue gelar-lhes nas veias. A voz mais profunda e selvagem que jamais haviam escutado estava dizendo:

— Nárnia, Nárnia, desperte! Ame! Pense! Fale! Que as árvores caminhem! Que os animais falem! Que as águas sejam divinas!

  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. O que é relevante, mas não surpreendente, considerando o tipo de alegorias que pontuam a série e, ainda mais, considerando os eventos de A Última Batalha