Capa do livro

A última dose do humor ácido do luminar da ficção científica e semideus da cultura nerd, Douglas Adams tem nome: O Salmão da Dúvida. Contando com vários textos inéditos e muitos outros publicados pelo autor ainda em vida. Coroando essa inestimável seleção está o inacabado terceiro volume da série de Dirk Gently que possivelmente seria reestruturado como o sexto livro da “trilogia” do Mochileiro das Galáxias.

O livro começa muito bom, ainda antes de lermos qualquer coisa escrita por Adams, com a interessante das origens do livro e da forma como o editor – Peter Guzzardi – reuniu o material a partir dos 2597 arquivos do Macintosh de Adams copiados para um CD por um amigo do autor após a sua morte súbita em 2001. Depois da Nota do editor temos a introdução por Stephen Fry para o livro que “contém uma introdução simplesmente brilhante sobre o problema de escrever introduções para livros”1. Trata-se de um texto emocionante de um colega e amigo do escritor que expressa exatamente o que sentem os milhões de fãs de Douglas Adams:

Quando você lê uma frase especialmente brilhante de Adams, sua vontade é cutucar o ombro do estranho mais próximo e mostrar a ele. O estranho pode até rir e parecer gostar do que está escrito, mas você se agarra à ideia de que ele não entendeu exatamente a força e a qualidade do texto, não tanto quanto você – da mesma forma que seus amigos também não se apaixonam (graças a Deus) pela pessoa sobre a qual você não para de falar um minuto.

Depois desta excelente introdução, O Salmão da Dúvida começa com o primeiro texto publicado por Adams. A divertida carta enviada para a revista Eagle quando o escritor tinha doze anos é seguida por hilariantes histórias da infância do autor e reflexões sobre os mais variados assuntos.

Nos vários textos coletados para formar este livro, DNA deu mostras do seu vasto conhecimento nas mais diversas áreas e da sua capacidade de transformar qualquer coisa em uma piada de inteligência sobre-humana. Muito de quem era o autor, além do que ele deixa transparecer em seus livros de ficção, está visível nesse excelente livro. Desde suas ideias avançadas sobre o papel da tecnologia na vida humana até debates sobre as perguntas mais fundamentais da vida, do universo e tudo mais. Nada escapava do gênio e do humor de Douglas Adams.

Além dos textos de não ficção, o livro inclui também um conto hilariante2 protagonizado por Zaphod em algum tempo anterior às aventuras de O Guia do Mochileiro das Galáxias (provavelmente durante o mandato de Zaphod como presidente) e, dominando a parte final do livro, a obra inacabada que dá título ao livro.

Apesar de o porquê do título “O Salmão da Dúvida” permanecer uma incógnita, já que Adams nunca chegou a escrever a explicação, é possível que ele venha da lenda do “salmão da sabedoria”. Uma criatura mitológica irlandesa que adquiriu todo o conhecimento do mundo após comer nove avelãs que tinham caído no Poço da Sabedoria. Segundo a lenda, aquele que comer a sua carne, ganhará todo este conhecimento.

O Salmão da Dúvida conta a história de um insoldável mistério com várias interconexões invisíveis (que infelizmente continuarão assim) com que Dirk Gently se depara e se desenvolve de maneiras insondáveis. Isso tudo incluindo um capítulo genial – o melhor do livro em minha opinião – narrado sob o ponto de vista do rinoceronte Desmond. (Quem não se lembrou do cachalote no Guia do Mochileiro?)

Finalizado com dois epílogos (sendo um escrito por Richard Dawkins), O Salmão da Dúvida é – seja para quem já é fã de Adams, seja para quem que nunca se aventurou a ligar o gerador de improbabilidade infinita – a deliciosa sobremesa servida por esse grande chef que se foi cedo demais.


Vários dos textos presentes em O Salmão da Dúvida – juntamente com outros textos de Douglas Adams – foram traduzidos e publicados pelo site Obrigado pelos Peixes na coluna “Peixe Babel”. Vale a pena conferir.


Ficha técnica

  • O Salmão da Dúvida
  • Título original: The Salmon of Doubt
  • Autor: Douglas Adams
  • Publicação original: William Heinemann Ltd. (2002, Reino Unido)
  • Publicação no Brasil: Arqueiro (2014)
  • Tradução: Fabiano Morais
  • Páginas: 302
  1. Imagine a situação em que se encontra aquele que tenta escrever uma resenha desse mesmo livro. 

  2. Imagino que esse conto era ainda mais engraçado na época em que a maioria das pessoas sabia quem foi Reagan.