Quarta resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

Segundo livro publicado e quarto na cronologia das Crônicas de Nárnia, O Príncipe Caspian narra a volta de Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia para Nárnia — chamados pela trompa mágica que antes pertenceu à rainha Susana — para ajudar o jovem príncipe Caspian a tomar o seu lugar de direito como rei.

Apesar da ida das crianças para Nárnia neste livro ter sido a mais forçada, por assim dizer, foi interessante ver a trompa da Susana em uso e notar que seu poder mágico é capaz de atingir o nosso mundo2. Ainda mais interessante foi elas terem ido parar nas ruínas de Cair Paravel — que ainda não havia aparecido de modo significativo na série.

Quanto à história de Caspian contada por Trumpkin, ela é muito interessante, apesar de contada de modo apressado — outra vez as batalhas, especialmente as que Caspian travou antes da chegada das crianças, foram muito vagamente descritas —, e deixa um ótimo gancho para a história de A Viagem do Peregrino da Alvorada3. Outro ponto interessante dessa história é a presença da astrologia como uma força relevante no mundo de Nárnia.

No tocante aos personagens, o mais legal desse livro (depois de Aslam) é o corajoso rato Ripchip. Achei muito bem sacado o conceito de que os ratos só ganharam o dom da fala depois que eles roeram as cordas de Aslam morto na mesa de pedra — em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.

Ainda sobre personagens, é interessante ver que Pedro e Susana, mais velhos, já perdendo o interesse pela magia, são os últimos a verem Aslam — sendo proibidos por este de voltarem a Nárnia. Também foi interessante ver Edmundo apoiando Lúcia, mostrando a evolução dos personagens.

Para encerrar, vale dizer que a batalha final entre as tropas da antiga Nárnia e os telmarinos foi a melhor da obra até então — assim como a lutra entre Miraz e Pedro — e chamar atenção para a melhor cena do livro: o rugido épico de Aslam, personagem tão genial que as suas aparições por si só já seriam o suficiente para fazer este livro, os outros das Crônicas de Nárnia, brilhantes.

Excerto

[…] O dia estava clareando. No oriente, perto da linha do horizonte, Aravir, a estrela da manhã de Nárnia, brilhava como um pequeno sol. Aslam, que parecia muito maior, levantou a cabeça, sacudiu a juba e rugiu.

O som, a princípio grave e vibrante como o de um órgão que se começa a tocar em nota baixa, foi-se elevando e tornando mais forte, até fazer vibrar a terra e o ar. Partindo da colina, espalhou-se pelo país todo. No acampamento de Miraz, os homens acordaram, entreolharam-se assustados e precipitaram-se para as armas. Lá embaixo, no Grande Rio, onde o frio era intenso naquela hora, as cabeças e os ombros das ninfas e a grande cabeça barbuda e coroada de junco do deus do rio emergiram da água. Mais longe, em todos os campos e nos bosques, as orelhas atentas dos coelhos saíram das tocas, as aves sonolentas retiraram as cabeças de debaixo das asas, as corujas piaram, as raposas ganiram, os porcos-espinhos grunhiram, as árvores estremeceram. Nas cidades e aldeias, as mães, com os olhos rasgados de espanto, apertaram os filhinhos ao peito, os cães latiram, os homens levantaram-se às pressas em busca de uma luz. Muito ao longe, na fronteira norte, os gigantes da montanha espreitaram pelos portões sombrios de seus castelos.

O que Lúcia e Susana viram foi uma coisa indefinida e escura que avançava para elas dos quatro pontos cardeais. Pareceu-lhes a princípio um nevoeiro negro e rastejante, depois ondas enormes de um mar negro crescendo, até que por fim compreenderam que era a floresta em marcha. Todas as árvores do mundo pareciam precipitar-se para Aslam. Mal se aproximavam, no entanto, já não eram árvores. Quando se juntaram ao redor dele, fazendo mesuras e reverências e acenando com seus braços longos e finos, o que Lúcia viu foi uma multidão de formas humanas. Pálidas bétulas-meninas balançavam a cabeça; salgueiros-mulheres afastavam os cabelos do rosto ensimesmado para olhares Aslam; faias majestosas adoravam-no imóveis; e havia carvalhos felpudos, olmos esguios e melancólicos, azevinhos desgrenhados (eles próprios escuros, mas suas mulheres lindas, enfeitadas com frutinhas), e as alegres sorveiras. Todos se inclinavam e se erguiam de novo aos gritos de “Aslam, Aslam”, nas suas vozes variadas: roucas, rangentes ou ondulantes.

  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Apesar de a vontade de Aslam, possivelmente, ser o fator mais determinante da ida das crianças à Nárnia. 

  3. A história envolvendo os sete fidalgos, enviados por Miraz para navegar a procura de novas terras, e que nunca mais voltaram.