Segunda resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

No primeiro livro publicado das Crônicas de Nárnia, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, conhecemos Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia, que estão presentes na maior parte da saga. A apresentação desses personagens é feita de modo bem simplista, dentro de arquétipos e lugares comuns — Edmundo como um menino malcriado, Pedro como o irmão mais velho protetor etc. Apesar desta não ser a maneira mais interessante de introduzir os personagens, é consistente e eficaz na literatura infantil2.

Um ponto interessante nesta obra é que o livro começa com a expressão “Era uma vez”, deixando claro o tom de contos de fadas que a história tem. Desta forma, a pergunta sobre qual dos lados (da Feiticeira ou dos animais falantes) está correto, feita por Edmundo, responde-se sozinha, apesar de em outros contextos3 ser inteiramente válida e poder ser debatida mais a fundo.

Nesse livro, Nárnia, como um reino de fantasia, é introduzido apropriadamente, com a participação dos faunos, dos animais falantes e da Feiticeira Branca como rainha. Nárnia é muito bem caracterizado pelas descrições simples, mas bem feitas de suas terras e habitantes, ganhando destaque as casas do fauno Tumnus e do Senhor e da Senhora Castor4 e a suntuosa refeição servida pelos castores — que dá água na boca do leitor.

Contudo, Aslam chama mais atenção, sendo a descrição dele muito rica e encantadora. A cena do sacrifício de Aslam na Mesa de Pedra (e sua posterior ressurreição) é o ponto alto do livro, merecendo destaque pela forma sublime e emocionante que foi narrada.

Quanto ao fim da história, a batalha do Beruna não foi narrada de modo completo — apesar de, uma vez mais, consistente com o tom da obra. Ver Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia como os reis de Nárnia fornece um final satisfatório para o livro, apesar de ser um pouco anticlimático ver as crianças voltarem para o nosso mundo com a mesma idade que tinha quando saírem.

Considerando tudo isso, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa como livro infantil é uma obra-prima, muito cativante e bem escrito, além de fornecer uma história sensacional para leitores de todas as idades.

Excerto

— Mas, professor, acha mesmo que pode existir outro mundo, em qualquer lugar, tão pertinho? Será possível?

— É muito possível — disse o professor, tirando os óculos para limpá-los. — Eu gostaria de saber o que estas crianças aprendem na escola! — murmurou para si mesmo.

— Mas o que devemos fazer no momento, perguntou Susana, que sentia a conversa sair dos eixos.

— Minha querida Susana — disse o professor, fitando ambos com um olhar penetrante —, há um plano ainda não sugerido por ninguém, e que talvez valha a pena experimentar.

— Qual?

— Cada um trate de sua própria vida.

  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Por mais que as Crônicas de Nárnia sejam classificadas como uma obra voltada para o público infantil, é impossível vê-la limitada a esse público, sendo interessante para leitores de todas as idades. 

  3. Esses outros contextos seriam obras de fantasia como As Crônicas de Gelo e Fogo, voltadas para o público adulto. 

  4. Me incomodou um pouco eles não terem nomes. (Como é que os castores chamam uns aos outros?)