Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Capa do livro

Apesar de ser má prática, faz-se necessário o uso de hipérboles para descrever a obra-prima de Douglas Adams. Poucos livros de ficção científica são tão sagazes, ousados e hilariantemente absurdos como o Guia do Mochileiro das Galáxias. Se trata de uma trama delirante, cheia de viradas geniais e inesperadas.

Podemos começar apontando um dos pontos fortes da obra é seu conjunto de personagens. Arthur Dent representa muito bem o papel do leitor ao longo da obra: perdido e confuso com o turbilhão de informações, mas ao mesmo tempo maravilhado a descoberta de novos mundos que vão além da sua imaginação. Trilliam, apesar de não tão explorada, fornece um ponto de equilíbrio entre o desconhecimento de Arthur e a naturalidade com que Zaphod e Ford tratam as bizarras situações onde eles se encontram. Esses dois fornecem exemplos interessantes de personagens interessantes que fogem ao esteriótipo de alienígena de ficção científica, ao mesmo tempo usando elementos típicos do gênero – como as duas cabeças e três braços de Zaphod.

Os personagens robôs são um espetáculo à parte. Temos de portas que gemem ao serem atravessadas ao irritante e alegre computador de bordo Eddie. Contudo, o grande espetáculo fica por conta de Marvin, o androide paranoide. O autor consegue fazer da depressão do robô uma fonte de cenas hilárias e falas impagáveis.

O autor também demonstra imensa criatividade para descrever com detalhes vívidos criaturas e cenários alienígenas – que outro livro tem como personagem um tom de azul superinteligente? Mesmo assim, as descrições e distrações não se alongam mais que o necessário e permitem que a leitura flua com suavidade.

É impressionante como, em cerca de duzentas páginas, Douglas Adams tenha conseguido explorar de modo completo uma variedade assuntos e gêneros, passando de crítica social à ficção científica pura em poucas palavras, sem nunca perder a atenção do leitor. Desta forma o livro consegue equilibrar momentos de tensão e de humor. Destaque para o incrível ataque dos mísseis, onde o livro dá spoiler dos eventos seguintes, a fim de evitar estresse.

O livro também toca questões profundas, como deixa claro a busca pela resposta e pergunta fundamentais. Porém o livro também trata destas questões de modo mais sutil na sublime passagem da cachalote, que tem que atravessar em poucos segundos toda a jornada filosófica que os ratos demoraram anos e dois supercomputadores para percorrer.

O livro se encerra de modo tão cômico e absurdo como começa, dando importância narrativa à personalidade de Marvin. São deixadas muitas questões em aberto, como é de se esperar do primeiro volume de uma trilogia de cinco. Desta forma, o leitor do Guia do Mochileiro das Galáxias não aguentará por muito tempo antes de começar a ler O Restaurante no Fim do Universo.

Excerto

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitiva que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia.

Este planeta tem — ou melhor, tinha — o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

Ficha técnica

  • Título: O Guia do Mochileiro das Galáxias
  • Série: O Mochileiro das Galáxias – Volume um da trilogia de cinco
  • Autor: Douglas Adams
  • ISBN: 978-85-99296-57-8
  • Editora: Sextante, Rio de Janeiro