Imagem: Marc Simonetti

Quarta resenha dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica

Capa do livro

  • Título: O Festim dos Corvos
  • Série: As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro Quatro
  • Autor: George R. R. Martin
  • ISBN: 978-85-8044-376-9
  • Editora: Leya, São Paulo
  • Sinopse: Continuando a saga mais ambiciosa e imaginativa desde O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Gelo e Fogo prosseguem após o violento triunfo dos traidores. Enquanto os senhores do Norte lutam incessantemente uns contra os outros e os Homens de Ferro estão prestes a emergir como uma força implacável, a rainha regente Cersei tenta manter intacta a força dos leões em Porto Real.

    Os jovens lobos, sedentos por vingança, estão dispersos pela terra, cada um envolvido no perigoso jogo dos tronos. Arya abandonou Westeros rumo a Bravos, Bran desapareceu na vastidão enigmática para além da Muralha, Sansa está nas mãos do ambicioso e maquiavélico Mindinho, Jon Snow foi proclamado comandante da Muralha, mas tem que enfrentar a vontade férrea do rei Stannis e, no meio de toda a intriga, começam a surgir histórias do outro lado do mar sobre dragões vivos e fogo…

    Quando Euron Greyjoy consegue ser escolhido como rei das Ilhas de Ferro não são só as ilhas que tremem. O Olho de Corvo tem o objetivo declarado de conquistar Westeros. E o seu povo parece acreditar nele. Mas será ele capaz? Em Porto Real, Cersei enreda-se cada vez mais nas teias da corte. Desprovida do apoio da família, e rodeada por um conselho que ela própria considera incapaz, é ainda confrontada com a presença ameaçadora de uma nova corrente militante da Fé. Como se desenvencilhará de tal enredo?

    A guerra está prestes a terminar, mas as terras fluviais continuam assoladas por bandos de salteadores. Apesar da morte do Jovem Lobo, Correrrio ainda resiste ao poderio dos Lannister, e Jaime parte para conquistar o baluarte dos Tully. O mesmo Jaime que jurara solenemente a Catelyn Stark não voltar a pegar em armas contra os Tully ou os Stark. Mas todos sabem que o Regicida é um homem sem honra. Ou não será bem assim?

Resenha

Com altas doses de mistério desde o prólogo. Assim começa O Festim dos Corvos, apresentando ao leitor Vilavelha, que, apesar de sua importância chave para os Sete Reinos, é quase esquecida pelo leitor enquanto acompanha as tramas e guerras que se desenrolam em Westeros. Com um grupo de acólitos e noviços da Cidadela discutindo as histórias sobre dragões trazidas por marinheiros do outro lado do Mar Estreito1, Pate é o protagonista do prólogo e a partir dele conhecemos um pouco sobre os segredos da Cidadela e sua aparição no fim do livro, mesmo tendo morrido no prólogo, é suficiente para levar o leitor à loucura2.

No entanto, após o prólogo (que sempre tem como protagonista um personagem secundário e que às vezes nunca tinha aparecido na saga antes) o leitor tem que passar por capítulos diferentes dos habituais. Intitulados com identificações de tom quase profético do “personagem ponto de vista”, ao invés do nome dos mesmos, estes capítulos apresentam personagens que nunca antes haviam sido protagonista (e, alguns casos, nunca sequer aparecido na saga) mostrando as tramas que se desenrolam no Dorne e nas Ilhas de Ferro.

Contudo, apesar do acréscimo destes novos personagens, o autor não conseguiu compensar a ausência de Daenerys, Jon e outros personagens bem mais marcantes do que Cersei, Brienne e Jaime que dominaram este livro. Já Arya, apesar de presente, quase não apareceu, mesmo sendo o seu arco o mais interessante do livro e o que começou com o melhor gancho em relação ao livro anterior. E do trio Cersei, Jaime e Brienne, a única personagem que se envolveu em aventuras comparáveis às de A Tormenta de Espadas foi a Donzela de Tarth.

As andanças de Brienne — acompanhada por Pod, o escudeiro mais legal dos Sete Reinos — em sua cativante saga para cumprir a promessa que fez a Senhora Catelyn criaram os melhores momentos do livro, dando a chance do autor mostrar o lado sombrio da guerra. Além da glória das conquistas e das jogadas dos lordes, o povo de Westeros sofreu com a Guerra dos Cinco Reis. Uma guerra a qual eles não são culpados, embora paguem o preço mesmo assim, como ficou marcado pelo emocionante monólogo do Septão Meribald (na página 325 e usado com excerto abaixo). A jornada de Brienne é coroada em seu encontro com a Senhora Coração de Pedra. Brilhante e assustador.

Enquanto Brienne lutava para encontrar as filhas de Eddard Stark, Jaime fazia uma monótona travessia para tomar Correrrio sem quase nenhuma resistência e Cersei “cambaleia de idiotice em idiotice”, como disse Petyr Baelish. O autor aí conseguiu fazer algum proveito de utilizar Cersei como ponto de vista: para mostrar que ela não é nem de perto a boa jogadora que aparenta ser no “jogo dos tronos”.

Mas enquanto Cersei se mostra uma catástrofe (o que é divertido de ler porque ela não se dá conta das próprias tolices e sempre acha que está por cima), vemos pelos olhos de Sansa/Alayne lorde Petyr Baelish — o verdadeiro vencedor do jogo dos tronos até o momento — apostando alto no Vale de Arryn em sua incrível jornada de manipulações e mentiras para obter poder (nem que seja queimando o reino para se tornar rei das cinzas3) e envolvendo cada vez mais a pobre Sansa em suas maquinações.

Porém, entre todas as intrigas da corte, um novo elemento se mostra relevante: a Fé. Depois de dois livros ouvindo as preces de Melisandre ao seu Senhor da Luz, os westerosi lembraram que também tem deuses. E nada melhor do que uma guerra e a ameaça da fome para fazer os homens e mulheres de Westeros se voltarem para os seus Sete que são Um e fazerem o país fervilhar com louvores exaltados que levam (com a estúpida autorização de Cersei) ao ressurgimento de mais uma força militar nos Sete Reinos: os Filhos do Guerreiro.

No entanto, O Festim dos Corvos é em maior parte uma espera. A história passa lenta, se baseando em pequenas ninharias, intrigas que parecem quase insignificantes comparadas com a guerra que acabou e a que os dragões prometem trazer sobre Westeros. O livro nos deixa o tempo todo com o sentimento de que alguma reviravolta vai acontecer (como as que marcaram os livros anteriores), porém a narrativa seguiu o seu curso quase reto rumo a um resultado relativamente previsível.

Mas até esse “defeito” pode ter sido bom para a saga. Ajudando a baixar os ânimos do leitor e dar um desfecho bem trabalhado para a Guerra dos Cinco Reis e abrindo caminho para que novas histórias sejam desenvolvidas sem que seja preciso resolver tramas anteriores apressadamente. Isso permite uma pausa inteligente para o leitor respirar, após a tensão que chegava a criar faíscas de A Tormenta de Espadas. Assim, mesmo que muitos digam que O Festim dos Corvos é inferior aos seus predecessores, ele está no mesmo nível de utilidade para a saga que os outros livros das Crônicas de Gelo e Fogo e até mesmo a sua história — mais lenta, sim — é maravilhosa de se ler.

Excerto

— Sor? Senhora? — Podrick os interrompeu. — Um desertor é um fora da lei?

— Mais ou menos — Brienne respondeu.

O Septão Meribald discordou.

— Mais menos do que mais. Há muitas espécies de fora da lei, assim como há muitos espécies de pássaros. Tanto um borrelho com uma águia marinha tem asas, mas não são a mesma coisa. Os cantores adoram cantar sobre bons homens forçados a sair da lei para combater um senhor malvado qualquer, mas a maioria dos foras da lei são mais parecidos com esse Cão de Caça voraz do que com o senhor do relâmpago. São homens maus, movidos pela ganância, amargurados pela maldade, que desprezam os deuses e só se preocupam consigo. Os desertores são mais merecedores de nossa piedade, embora possam ser igualmente perigosos. Quase todos são plebeus, gente simples que nunca tinha estado a mais de uma milha da casa onde nasceu, até que algum senhor veio para levá-los para a guerra. Mal calçados e malvestidos, partem marchando sob seus estandartes, muitas vezes sem melhores armas do que uma foice, uma enxada afiada ou um martelo que eles mesmos fizeram atando uma pedra a um pedaço de madeira com tiras de pele de animal.

“Irmão marcham com irmãos, filhos com pais, amigos com amigos. Ouviram as canções e as histórias, e por isso vão se embora de coração ansioso, sonhando com as maravilhas que verão, com as riquezas e as glórias que conquistarão. A guerra parece uma bela aventura, a melhor que maioria deles alguma vez conhecerá. Então experimentam o sabor da batalha. Para alguns, essa única experiência é suficiente para quebrá-los. Outros resistem mais durante anos, até perderem a conta de todas as batalhas em que lutaram, mas mesmo um homem que sobreviveu a cem combates pode fugir no centésimo primeiro. Irmão veem os irmãos morrer, pais perdem os filhos, amigos veem os amigos tentando manter as entranhas dentro do corpo depois de serem rasgados por um machado. Veem o senhor que os levou para aquele lugar abatido, e outro senhor qualquer grita que agora pertencem a ele. São feridos, e quando a ferida ainda está apenas meio cicatrizada, sofrem outro ferimento. Nunca há o suficiente para comer, os sapatos se desfazem devido às marchas, as roupas estão rasgadas e apodrecendo, e metade deles anda cagando nos calções por beber água ruim. Se quiserem botas novas ou um manto mais quente ou talvez um meio-elmo de ferro enferrujado, têm de tirá-los de um cadáver, e não demora muito para que comecem também a roubar dos vivos, do povo em cujas terras combatem, homens muito parecidos com os que eram. Matam suas ovelhas e roubam suas galinhas, e daí é um pequeno passo até levarem também suas filhas.

“E um dia, olham ao redor e percebem que todos os seus amigos e familiares se foram, que estão lutando ao lado de estranhos, sob um estandarte que quase não reconhecem. Não sabem onde estão nem como voltar para casa, e o senhor por quem combatem não sabe seus nomes, mas ali vem ele, gritando-lhes para se posicionarem, para fazerem uma fileira com as lanças, foices e enxadas afiadas, para aguentarem. E os cavaleiros caem sobre eles, homens sem rosto vestidos de aço, e o trovão de ferro de seu ataque parece encher o mundo… E o homem quebra. Vira-se e foge, ou rasteja para longe, depois por cima dos cadáveres, ou escapole na calada da noite e encontra um lugar qualquer para se esconder. Toda noção de casa está perdida a essa altura, e reis, senhores e deuses significam menos para ele do que um naco de carne estragada que lhes permita sobreviver mais um dia, ou um odre de vinho ruim que possa afogar-lhes o medo durante algumas horas. O desertor sobrevive dia a dia, de refeição em refeição, mais animal do que homem. A Senhora Brienne não erra. Em tempos como estes, o viajante deve ter atenção desertores, e temê-los… mas também deve ter piedade por eles.”

  1. Quando as histórias dos marinheiros são citadas, além dos dragões em Qarth, Meereen, dos dragões dothraki e dos dragões libertando escravos — que sabemos serem os dragões da Daenerys — são citados dragões em Asshai. E no primeiro livro, A Guerra dos Tronos, quando o corvo de três olhos mostra para Bran todo o mundo das Crônicas de Gelo e Fogo, também são citados dragões em Asshai, o que me faz pensar que talvez os dragões não tenham estado tão extintos assim.

    Mas isso tudo é, obviamente, pelo menos por enquanto, apenas uma teoria. 

  2. Eu tenho uma teoria quanto a isso que acredito que valha a pena compartilhar. Para mim, o alquimista que matou Pate no prólogo é Jaqen H’ghar, assumindo então o rosto do noviço para entrar na Cidadela, aparecendo então no encerramento do livro.

    Isso é relativamente evidente comparando-se que a descrição do rosto do alquimista e do rosto de Jaqen após a sua transformação em A Fúria dos Reis, tendo inclusive uma cicatriz em comum. (Verifique as páginas 446 de A Fúria dos Reis e 20 de O Festim dos Corvos e tire suas próprias conclusões).

    Agora, o que Jaqen quer na Cidadela e com a chave que Pate lhe vendeu, não me arrisco a teorizar. Mas lembro de que nunca foi revelado o porquê Jaqen que estava preso em Porto Real quando Yoren decidiu levá-lo para a Muralha, podendo estar aí as respostas. 

  3. Citação a uma frase de Varys no episódio “And Now His Watch Is Ended” da terceira temporada de Game of Thrones. (Não lembro se esta frase é usada em algum momento nos livros também.)