Hoje (23/11/2014), Doctor Who – série britânica de ficção científica – comemora 51 anos. A série que ainda é produzida e nunca foi tão popular continua atraindo o interesse de mais pessoas. Meu objetivo neste texto é portanto dar um guia para quem quer começar a assistir a série e não sabe como fazer.

Como a série funciona e um pouco de história

Doctor Who é uma série sobre um homem louco e uma caixa. O homem louco é o Doutor, um alienígena humanoide – um Senhor do Tempo, mais precisamente – do planeta Gallifrey, com centenas de anos de vida e a habilidade de driblar a morte transformando o seu corpo em um novo, o que faz com que vários atores tenham interpretado o Doutor ao longo dos anos. A caixa é a TARDIS (Time and Relative Dimensions in Space), a sua nave maior por dentro do que por fora que pode ir para qualquer lugar do espaço e do tempo.

O Doutor viaja pelo Universo em sua TARDIS geralmente com a companhia de amigos humanos que ele conhece em suas aventuras. Sempre que o Doutor chega em um lugar que esteja com um problema ou sobre alguma ameaça é parte de sua índole ajudar a salvar o dia.

A série clássica de Doctor Who começou em 1963 e foi exibida continuamente por 26 temporadas, contando com sete encarnações diferentes do Doutor. Os episódios das temporadas clássicas são partes de arcos, cada arco sendo composto por – na maioria dos casos – quatro episódios. Cada arco funciona como uma história isolada, geralmente não sendo necessário assistir a série desde o começo para entender o que está acontecendo.

Com o cancelamento da série clássica, de 1989 a 1996 a série ficou em hiato, continuando apenas no seu universo expandido. Contudo, em 1996 foi produzido um filme voltado para o público americano que deveria abrir caminho para um recomeço da série a ser exibido pela Fox. Entretanto, o projeto nunca saiu do papel.

Em 2005, a BBC voltou a produzir a série de modo regular, com temporadas formadas por geralmente 13 episódios, especiais de Natal e outros especiais. A maioria dos episódios são histórias independentes, algumas vezes contadas em episódios duplos, que em muitos casos não é preciso que se tenha visto tudo que veio antes. Nesses episódios vão plantadas pequenas dicas e ajudam a construir tramas maiores que são resolvidas no fim da temporada. Da quinta temporada em diante, as temporadas são conectadas formando uma grande trama que é resolvida no especial de Natal de 2013. A série moderna já teve oito temporadas e contou com quatro Doutores distintos (e mais o Doutor da Guerra).

Recomendações de episódios

Mesmo com a sua ampla história e mitologia, a maioria dos episódios de Doctor Who podem ser assistidos sozinhos. Então, antes de começar pelo começo, você pode conferir como a série é assistindo alguns dos episódios a seguir.

Vale lembrar que como o Doutor muda seu corpo nesses episódios você encontrará Doutores diferentes. Da mesma forma, os companheiros de viagem vem e vão e os episódios a seguir variam quais as companheiras estão a bordo da TARDIS. Essas mudanças são a alma da série e conhecer logo vários Doutores e companheiros pode lhe ajudar a decidir por onde começar a assistir.

Você não precisa assistir logo todos esses episódios. Assista aqueles que mais lhe chamam a atenção para ir se familiarizando com a série e os seus personagens até você decidir começar a acompanhar a história cronologicamente.

The Empty Child & The Doctor Dances

No nono e no décimo episódios da primeira temporada moderna, o 9º Doutor e sua companheira Rose perseguem uma cápsula de guerra vagando cegamente pelo espaço até a Londres de 1941. No auge dos ataques alemães a Londres durante a Segunda Guerra Mundial, o Doutor e a Rose, com ajuda do misteriosos Capitão Jack Harkness descobrem que aquela cápsula carregava uma ameaça ainda mais assustadora que a guerra que os cerca.

The Girl in the Fireplace

No quarto episódio da segunda temporada moderna, o 10º Doutor, Rose e Mickey pousam a TARDIS em uma nave do século 51 habitada por robôs que usam orgãos humanos para repararem as suas naves. Esta nave também está cheia de portais no espaço-tempo que levam para a França do século 18, conectando a nave a vários momentos da vida de Reinette Poisson – a Madame de Pompadour, amante do rei Luis XV e rainha não coroada da França.

Tentando salvar a vida de Reinette dos robôs, o Doutor pula entre diversos momentos da vida desta figura histórica e influencia a sua vida de modos que nem ele esperava.

O décimo episódio da terceira temporada é um dos mais aclamados da série moderna. Durante a era do 10º Doutor viajando com Martha Jones, mas quase sem a participação de nenhum dos dois, vemos uma personagem nova, Sally Sparrow, sendo perseguida pelos aterrorizantes Anjos Lamentadores.

Esse episódio é muito bom para começar a assistir porque Sally, assim como o espectador de primeira viagem, não conhece nada sobre o Doutor e todos os principais conceitos da série são explicados para ela e para o público. Também, esse episódio aproveita ao máximo o recurso das viagens no tempo, sendo recheado de paradoxos, reversões de causa e efeito e tudo o mais que um fã do gênero poderia pedir.

A única ressalva que deve ser levantada é que esse episódio é diferente do padrão que a série segue e os seus personagens (com exceção do Doutor e da Martha) não aparecem novamente. Assim ele pode dar a falsa impressão que todos os episódios acontecem nos mesmos moldes. Mesmo assim, é uma introdução perfeita para o universo de Doctor Who.

The Eleventh Hour

Estreia da quinta temporada, The Eleventh Hour é também o primeiro episódio do 11º Doutor e sua companheira Amy Pond e também o início da era de Steven Moffat como showrunner, sendo um marco importante da série moderna. Nesse episódio vemos o Doutor tentando recapturar um criminoso de outro planeta que fugiu para a Terra antes que os seus carrascos destruam o mundo só para impedir que o foragido fique livre.

Tocante, cheio de tensão e mistérios e abrindo caminho para uma das fases de maior sucesso da série, esse episódio é uma ótima pedida para começar em Doctor Who.

Vincent and the Doctor

No emocionante décimo episódio da quinta temporada, o 11º Doutor e sua companheira Amy Pond vão visitar Vincent Van Gogh para investigar uma figura de outro mundo que aparece em uma de suas pinturas. Mostrando – com uma atuação memorável de Tonny Curran como Van Gogh – o lado perturbado e cheio de conflitos do grande artista, mas sem esquecer de exaltar a sua capacidade ver um mundo cheio de beleza.

E além do mais, o episódio termina de um modo que eu desafio qualquer um a assistir sem se emocionar.

A Christmas Carol

Com o 11º Doutor, Amy Pond e Rory Williams, o especial de Natal de 2011 é outro episódio para quem gosta de se emocionar. Recontando o clássico Conto de Natal de Charles Dickens, o Doutor usa a sua TARDIS para fazer os papéis de fantasma dos natais passados e futuro para transformar um homem mesquinho e cruel – que é o único que pode ajudar a salvar Rory e Amy – em um homem bom na noite de Natal.

Hide

No nono episódio da sétima temporada moderna, o 11º Doutor e Clara Oswald vão para uma casa mal-assombrada no ano de 1974. Envolvendo inúmeras viagens no tempo e no espaço, a possibilidade da existência de fantasmas e dimensões alternativas, Hide é o encontra perfeito entre ficção científica e fantasia.

Nightmare in Silver

Escrito pelo mundialmente aclamado Neil Gaiman (criador de Sandman) o 12º episódio da sétima temporada leva o 11º Doutor e Clara para um parque de diversões abandonado no futuro onde o Cybermen – um dos monstros mais tradicionais da série – estão se reconstruindo após perderem uma guerra contra o Império humano. Tendo que travar uma luta interna para não ser convertido em um Cyberman, o Doutor precisa tanto salvar todos no planeta dos vilões, quanto dos protocolos do Império que exigem que qualquer planeta tomado por Cybermen seja destruído antes que eles se espalhem.

Assistindo cronologicamente

Se você foi convencido pelos episódios acima a assistir Doctor Who cronologicamente, você tem uma decisão a tomar: começar do início da série moderna ou da quinta temporada moderna.

Estou excluindo a possibilidade de começar pela série clássica porque é insanidade. Doctor Who teve 26 temporada clássicas, tendo começado ainda em preto e branco, sendo que muitos dos episódios das primeiras seis temporada estão irremediavelmente perdidos e só existem em reconstruções e versões em animação. Além do mais, a série era produzida para o público de outra era. Não que a série moderna seja melhor1, mas a série clássica é muito fora da caixa para se começar.

Começar da primeira temporada moderna tem a vantagem que você acompanha toda evolução dos personagens dessa nova era, mas pelo lado negativo, tratam-se de oito temporada ao todo, sendo que as primeiras eram muito inferiores em questões técnicas que as mais recentes – assim como o roteiro vai melhorando constantemente.

A outra opção viável é começar pela quinta temporada. Você vai perder quatro temporadas maravilhosas, mas conseguirá acompanhar tranquilamente a trama, com a série já no mesmos padrões visuais da maioria dos programas atuais.

Tudo isso é apenas sugestões. O importante é assistir Doctor Who.

  1. Ou pior, ou mesmo igual. Não é razoável comparar histórias de épocas e com formatos tão diferentes.