Quarta resenha dos livros da saga do Mochileiro das Galáxias. Leia as outras aqui.


Alerta: Este texto contem spoilers.

Ficha técnica

Capa do livro

  • Título: Até Mais, e Obrigado pelos Peixes
  • Série: O Mochileiro das Galáxias - Volume 4 da trilogia de quatro cinco
  • Autor: Douglas Adams
  • ISBN: 978-85-99296-60-8
  • Editora: Sextante, Rio de Janeiro
  • Sinopse: Depois de viajar pelo Universo, ver o aniquilamento da Terra, participar de guerras interestelares e conhecer as mais extraordinárias criaturas, Arthur está de volta ao seu planeta. Tudo parece igual, mas ele descobre que algo muito estranho aconteceu na sua ausência. Curioso com o fato e apaixonado por uma garota tão estranha quanto o que quer que tenha acontecido, ele parte em busca de uma explicação.

Resenha

Que mensagem Deus deveria ter deixado para a sua Criação? Poucos seriam capazes de ousar dar uma resposta. Destes, quase nenhum daria uma resposta razoável. E somente um foi capaz de dar a resposta certa: Douglas Adams.

Apesar de diferir muito dos volumes anteriores do Mochileiro das Galáxias, Até Mais, e Obrigado pelos Peixes foi capaz de sair da zona de conforto do leitor, mas sem decepcionar, nem abandonar o espírito da saga.

De modo geral, nenhuma estória de romance consegue me convencer de ser uma estória digna de ser lida. Não que o gênero em si seja ruim, mas os escritores do gêneros tendem a não conseguir construir uma boa estória sobre esse tema. Da mesma forma, muitos autores (se não todos) adicionam elementos de estórias de romance em suas obras de modo gratuito, sem adicionar nada ao livro, apenas por questões comerciais (ou porque é mais fácil descrever um romance do que usar o cérebro para escrever uma boa estória), e acabam estragando a obra1.

No entanto, em Até Mais, e Obrigado pelos Peixes, Douglas Adams rompeu com o padrão. O relacionamento entre Arthur Dent e Fenchurch, apesar de dominar a maior parte do livro, não foi o centro da narrativa — que continuou focada nas grandes questões da vida, do Universo e de tudo mais —, portanto, não descaracterizando a obra nem atrapalhando a estória da saga. No entanto, também não foi apenas um elemento gratuito e sem importância, sendo relevante para o desenrolar da trama e no desenvolvimento dos personagens.

Da mesma forma, a Fenchurch constituiu uma personagem adorável e que sinalizou para a incrível competência do autor no planejamento de sua estória ao resgatar na finalização2 da saga eventos do prólogo do primeiro livro.

Igualmente agrada muito a estória ter sido contada sob a ótica de Arthur, que geralmente faz o papel do leitor na trama: não entendendo quase nada. Outro ponto que gostei foi Ford ter conseguido falir de modo inteligente e divertido a maldita Companhia Sirius.

O último capítulo é o auge da genialidade de Adams. Com uma linguagem sublime, o autor narra o esperado momento em que o leitor e os personagens (incluindo Marvin, cuja aparição foi formidável) finalmente encontram a mensagem final de Deus para sua Criação e, apesar de sua simplicidade, são capazes de vislumbrar o sem brilhantismo.

Excerto

Segure o palito no centro. Umedeça a extremidade pontiaguda na boca. Insira entre os dentes, a extremidade afiada próxima à gengiva. Movimente suavemente de dentro para fora.

— Cheguei a conclusão — disse Wonko, o São — de que uma civilização que havia perdido a cabeça a ponto de sentir a necessidade de incluir instruções de uso detalhadas em uma caixinha de palitos de dente não era uma civilização onde eu pudesse viver e continuar são.

  1. Com a ressalva de não estar pretendendo diminuir nenhuma obra, autor ou gênero em particular, acredito que o mesmo argumento seja válido para TV, cinema e várias outras mídias. 

  2. Originalmente, a saga do Guia do Mochileiro das Galáxias era para ser uma “trilogia de quatro”. Tanto que em Até Mais, e Obrigado pelos Peixes a estória é praticamente finalizada e todas as pontas soltas amarradas, exceto pelo fato que Arthur Dent ainda não havia estado em Stavromula Beta.

    Em 1992, Douglas Adams escreveu Praticamente Inofensiva que esclarece essa questão e dá um fim “definitivo” à saga.

    Entretanto, após a morte de Douglas Adams, Eoin Colfer escreveu, com autorização da família de Adams, mais um livro para a série: E Tem Outra Coisa…