Quinta resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

Terceiro livro publicado e quinto na cronologia das Crônicas de Nárnia, em A Viagem do Peregrino da Alvorada, Edmundo e Lúcia vão pela última vez para o mundo de Nárnia, mas desta vez acompanhados de seu insuportável primo Eustáquio.

O “trajeto de ida” das crianças para Nárnia neste livro é o mais impensável e bem escrito de toda a saga. É interessante também eles encontrarem Caspian após o início de sua aventura, que, diferentemente dos outros livros, é simplesmente uma aventura2. Não há nenhum grande inimigo a ser batido, nenhuma ameaça sobre Nárnia, o que faz este livro especialmente interessante e permitindo acrescentar muita mitologia ao mundo de Nárnia.

Desta forma, A Viagem do Peregrino da Alvorada é um daqueles livros em que a jornada é mais importante do que o destino. Com sua primeira parada nas Ilhas Solitárias, essa jornada mostrou os aspectos menos fantásticos do mundo de Nárnia que haviam sido ignorados nos livros anteriores, como a questão da escravidão e a hilária burocracia do governo das Ilhas. Também chama atenção a inteligente estratégia criada por Bern para Caspian reconquistar as Ilhas sem um grande exército.

Das aventuras e perigos que os viajantes do Peregrino da Alvorada encontraram, destaca-se a Serpente do Mar — e esperteza de Ripchip para se livrar dela — e o lago das Águas de Ouro — ou melhor, da Água da Morte — que causou discórdia entre Caspian e Edmundo, rapidamente resolvida por Aslam.

Já no tocante aos personagens, o destaque vai para Eustáquio e a sua merecida transformação em dragão, sendo esta a primeira vez em que dragões aparecem nas Crônicas de Nárnia. A cena em que ele e o leitor notam a transformação também foi muito feita, além de bem engraçada. No entanto, o personagem passou o resto da história sem nenhuma relevância na história.

Além dos dragões, outros elementos fantásticos se mostraram muito mais presentes em A Viagem do Peregrino da Alvorada do que nos outros livros das Crônicas de Nárnia, se multiplicando conforme o navio narniano se aproximava do Fim do Mundo. É especialmente interessante a ilha com a Mesa de Aslam, incluindo o estrela Ramandu, sua filha e a faca que a Feiticeira Branca usou para matar Aslam, que lá está preservada.

Entretanto, como de costume, os pontos altos do livro foram as aparições de Aslam (mais constantes neste livro), especialmente, pela beleza do diálogo, quando Lúcia o fez aparecer com o feitiço capaz de tornar visíveis as coisas ocultas — pronunciado por ela para acabar com a invisibilidade dos hilários Monópodes (ou Tontópodes). Também chama atenção a aparição de Aslam sob a forma de um albatroz — primeira vez que ele aparece sob uma forma que não a de leão — para ajudar os narnianos a fugir da Escuridão, sendo esta a parte mais assustadora do livro.

No Mar Derradeiro — com as suas nutritivas águas doces —, as maravilhas narradas no livro alcançaram o ápice, com o Sol brilhando muito maior e com a presença do Povo do Mar. O deslumbrante Mar de Prata, o Fim do Mundo propriamente dito e, além dele, a visão do país de Aslam fecham a narrativa de modo sensacional, digno do melhor livro das Crônicas de Nárnia.

Excerto

À porta estava o próprio Aslam, o Leão, o Supremo Rei de todos os Grandes Reis. Concreto, real e quente, deixando que ela o beijasse e se escondesse na sua juba fulgurante. Pelo som cavo e trovejante que ele emitia, Lúcia ousou pensar que ronronava.

— Que bom ter vindo, Aslam!

— Estive sempre aqui. Mas você acabou me tornando visível.

— Aslam! — exclamou Lúcia, quase com reprovação. — Não brinque comigo! Como se eu fosse capaz de fazê-lo visível!

— Pois fez. Acha que eu não obedeço às minhas próprias leis? […]

  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Apesar de haver uma obrigação moral por trás da aventura: a busca pelos sete fidalgos que Miraz mandou navegar rumo ao desconhecido, conforme dito em O Príncipe Caspian