Sétima e última resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

No último livro das Crônicas de Nárnia, A Última Batalha — título muito apropriado — vemos o fim do mundo fantástico de Nárnia. Cheio de referências ao Apocalipse cristão, desde o começo o livro deixa bem claro que aqueles eram os “últimos dias de Nárnia” quando apresenta o maldito macaco Manhoso (que acaba fazendo o papel de um falso profeta) e o jumento — em todas as acepções do termo — Confuso que, convencido por Manhoso após acharem uma pele de Leão, se torna o falso Aslam — apesar dos gritantes sinais de alerta.

Com o mesmo clima sombrio, Tirian é caracterizado desde o início da história como o “último rei de Nárnia”. Um rei aparentemente mais sério e severo do que seus antecessores, além de menos prudente e controlado, como fica evidente ao assassinar a sangue frio os calormanos. Apesar de tudo isso, foi muito legal ver um rei que monta um unicórnio e não um cavalo. (Teria sido legal se todos os reis de Nárnia tivessem unicórnios.)

Além de um rei assassino, existem muitos outros pontos mais sombrios em A Última Batalha (o que torna o livro bem mais completo que os seus anteriores). O exemplo mais importante para a narrativa é que — pela primeira vez de forma aprofundada — foi abordada a religião dos narnianos e de seus vizinhos calormanos. É muito interessante ter sido levantada a falsa suposição de Tash2 e Aslam serem o mesmo. No entanto, a aparição de Tash — o ponto mais sombrio e assustador do livro — levanta a questão: quem (ou o que) é Tash? Um deus, um demônio?

Com a tomada de Nárnia pela Calormânia, temos a última batalha, propriamente dita, narrada. Esse é um momento muito triste e sublime do livro, ainda mais porque, pela primeira vez, uma batalha nas Crônicas de Nárnia foi narrada com relativa riqueza de detalhes.

Quanto à participação de Jill e Eustáquio, apesar de ter sido interessante a história envolvendo eles tentando ir para Nárnia, uma vez que chegaram lá não tiveram uma participação muito relevante na história, apesar de terem se mostrado corajosos e eficazes nas batalhas.

Contudo, a melhor parte do livro é a que sucede a batalha. É a noite caindo sobre Nárnia para sempre. Com a presença do gigante Tempo e dos dragões citados em A Cadeira de Prata, o mundo de Nárnia é destruído para sempre com a mesma beleza narrativa de quando foi criado. Agora todas as crianças que visitaram Nárnia — com a exceção de Susana, exclusão esta que achei desnecessária — tem novas e infindáveis aventuras para viver eternamente com Aslam e todos os heróis do passado na Nova Nárnia.

Excerto

Então o gigante levou à boca uma trombeta. Sabiam disso porque a silhueta dele contra as estrelas mudara de formato. Depois disso — mas só um pouquinho, já que o som se propaga mais devagar —, ouviram o som da trombeta, alto e terrível, se bem que de uma beleza estranha e fatal.

Imediatamente o céu ficou cheio de estrelas cadentes. Uma única estrela cadente já é algo lindo de se ver. Desta vez, porém, eram dúzias delas, e depois um monte, e depois centenas, até que mais parecia uma chuva de prata — e assim continuou, aumentando cada vez mais. Quando finalmente o espetáculo parou por um instante, alguém do grupo teve a impressão de que uma nova sombra aparecera no céu, assim como a do gigante. Agora, porém, era num lugar diferente, lá em cima, bem no “teto” do céu, por assim dizer. “Talvez seja só uma nuvem”, pensou Edmundo. De qualquer forma, naquele ponto do céu não havia estrelas, só escuridão. Entrementes, em todo lugar à volta o espetáculo de estrelas continuava. Então a marcha sem estrelas começou a crescer, espalhando-se cada vez mais, a partir do centro do céu. Agora já um quarto de todo o céu estava escuro, e depois a metade, e finalmente só se via a chuva de estrelas cadentes, lá embaixo, na linha do horizonte.

Com um misto de espanto e terror, todos subitamente estremeceram ao se darem conta do que estava realmente acontecendo. A escuridão que se propagava não era nuvem coisa nenhuma: era simplesmente um vazio. A parte negra do céu era o lugar onde já não havia mais estrelas. Todas elas estavam caindo. Aslam as chamara de volta para casa.

  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Tash é o “deus” cultuado pelos calormanos.