Imagem: Marc Simonetti

Terceira resenha dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica

Capa do livro

  • Título: A Tormenta de Espadas
  • Série: As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro Três
  • Autor: George R. R. Martin
  • ISBN: 978-85-80442-62-5
  • Editora: Leya, São Paulo
  • Sinopse: Enquanto os Sete Reinos estremecem com a chegada de temíveis selvagens, que atravessam a Muralha numa maré interminável de homens, gigantes e terríveis bestas, Jon Snow, o bastardo de Winterfell, que se encontra entre eles, divide-se entre sua consciência e o papel que é forçado a desempenhar.

    Robb Stark, o Jovem Lobo, vence todas as suas batalhas, mas será que conseguirá vencer os desafios que não se resolvem apenas com a espada? Arya continua a caminho de Correrrio, mas mesmo uma garota tão destemida como ela terá grande dificuldade em ultrapassar os obstáculos que surgem em seu caminho.

    Na corte de Joffrey, em Porto Real, Tyrion luta pela vida, depois de ter sido gravemente ferido na Batalha da Água Negra; e Sansa, livre do compromisso com o homem que agora ocupa o Trono de Ferro, precisa lidar com as consequências de ser a segunda na linha de sucessão de Winterfell, uma vez que Bran e Rickon foram dados como mortos.

    No Leste, Daenerys Targaryen navega em direção às terras de sua infância, mas antes ela precisará aportar nas desprezíveis cidades dos escravagistas. Porém a menina indefesa agora é uma mulher poderosa. Quem sabe quanto tempo falta para se transformar em uma conquistadora impiedosa?

    Todo o território continua a ferro e fogo.

Resenha

O mais longo livro das Crônicas de Gelo e Fogo, A Tormenta de Espadas começa com a mesma impressão que seus anteriores: é um livro grande. Em todas as acepções do termo. As 880 páginas do livro (incluindo apêndice) cobrem histórias situadas em vários pontos de Westeros e Essos, no verossímil mundo fantástico criado por George R. R. Martin.

O terceiro volume da saga surpreende nas aventuras e intrigas em que cada um dos personagens se envolve (nunca tantos personagens estiveram em trânsito por Westeros), além de solucionar — de modo também surpreendente — alguns mistérios que pairavam desde o primeiro livro, como o assassinato de Jon Arryn e a tentativa de assassinato de Bran (mostrando que afinal os Lannister não são tão culpados quanto alguns leitores podem pensar1). Da mesma forma, algumas histórias dos tempos (e de pouco antes) da rebelião de Robert Baratheon foram contadas, como o torneio de Harrenhall — em que Jaime recebeu o manto branco — e o assassinato do Rei Louco por Jaime.

A Tormenta de Espadas é capaz de superar expectativas por conseguir manter as características favoráveis das obras anteriores e por melhorar o ritmo da narrativa. O livro já começa com planos de motim na Patrulha da Noite, ataque dos Outros e lutas de Brienne para manter o Regicida a salvo em sua fuga de Correrrio (e posterior jornada a Porto Real).

Jaime este que, como personagem ponto de vista, foi tão bem desenvolvido que — apesar de nos livros anteriores ele ter sido retratado como uma pessoa vil e sem honra, um quase vilão — passou até a merecer um pouco de simpatia (ou pelo menos empatia) por parte do leitor. A gente quase se esquece de que Jaime atirou Bran da torre quando ele conta como salvou Porto Real da loucura de Aerys.

Outros pontos de vista da história também foram bem vindos com a presença de Jon Snow entre os selvagens, nos lembrando de que, apesar de não ser muito civilizado, o povo livre também é composto de pessoas, como todas as outras, e que também precisam lutar contra os Outros e os seus servos mortos-vivos para sobreviver. Assim como os Outros, os dragões e outros seres e eventos sobrenaturais começaram a participar mais ativamente da estória, fazendo a narrativa rica em elementos fantásticos — que eram escassos nos livros anteriores.

Contudo, entre todos, em A Tormenta de Espadas os dragões se destacam. Maiores e mais ativos do que nunca, eles ganharam uma parcela mais ampla na narrativa do que nos livros anteriores. Pela primeira vez, foram usados em uma batalha de verdade, em Astapor. Assim, os dragões deixam de ser apenas uma esperança para o futuro de Dany, mostrando-se já agora as armas de destruição em massa que são.

A passagem de Daenerys pela cidade escravagista também foi decisiva para o rumo da personagem. Mais capaz do que nunca de levantar armas para reivindicar seu trono, Daenerys tem um novo objetivo, governar os seus libertos até seus dragões — e ela — crescerem. A Mãe dos Dragões adotou também os escravos (agora libertos), tendo entre eles a melhor infantaria do mundo: os Imaculados, agora a seu serviço. Mas como o Jovem Lobo provou, a sabedoria é mais importante do que vitórias em batalha.

No tocante a Robb Stark, chama atenção o ponto mais surpreendente e dramático do livro: o Casamento Vermelho2. Trata-se de uma jogada de mestre do autor (é possível contar nos dedos o número de grandes escritores com audácia de dar um fim tão dramático para os quase heróis da saga), que criou um momento de pura dor e drama, como nunca vi antes em nenhuma obra de literatura fantástica.

Mas no Jogo dos Tronos, ninguém está a salvo. E isso é colocado à prova mais uma vez no dito Casamento Púrpura, onde o desprezível Rei Joffrey encontra seu fim, que é até certo ponto engraçado, embora haja como evitar se sentir um pouco de pena por ele (como Tyrion nos lembra, “o rapaz só tem treze anos”). Só George R. R. Martin para me fazer ter pena da morte do personagem mais cruel da saga. Martin faz ainda outra demonstração de não ter medo de deixar um gosto amargo na boca dos leitores ao dificultar a trajetória de Tyrion, o “Lannister bom”, um dos personagens mais carismáticos da saga3.

A Tormenta de Espadas faz as Crônicas de Gelo e Fogo atingirem seu ponto de maior tensão, com o ritmo mais acelerado do que nos dois tomos anteriores, mas sem nenhum momento com perda na riqueza de detalhes e na capacidade de alimentar a imaginação do leitor com as suas ricas e diversificadas paisagens e seu grande conjunto de personagens de moral ambígua para dar a sensação de realismo ao seu um mundo de dragões e mortos-vivos.

Da mesma forma que começa e se desenrola com muita tensão, A Tormenta de Espadas termina de forma brilhante, abrindo caminhos — e levantando perguntas — para cada um dos personagens. Com Daenerys reinando em Meereen, os Lannister tendo que se manter no poder sem a liderança de Lorde Tywin, Arya usando da moeda de Jaqen H’ghar (e dizendo “valar morghulis”), Jon Snow como Senhor Comandante da Patrulha da Noite, a Senhora Catelyn Stark ressuscitada buscando vingança pelo Casamento Vermelho no sensacional epílogo e outros vários caminhos que o autor abriu no encerramento do terceiro volume somam à excelente história contada um novo trunfo à Tormenta de Espadas: fazem o leitor querer continuar a ler as histórias de Gelo e Fogo criadas por George R. R. Martin.

Excerto

[…] Os deuses ouviram a minha prece.

Imaculados! — Dany galopou à frente deles, com a trança de um louro prateado esvoaçando atrás, e a sineta tilintando a cada passo. — Matem os Bons Mestres, matem os soldados, matem todos os homens que usem um tokar ou tenham um chicote nas mãos, mas não façam mal a nenhuma criança com menos de doze anos, e arranquem as correntes de todos os escravos que virem. — Ergueu os dedos da harpia… e então atirou o açoite para longe. — Liberdade! — entoou. — Dracarys! Dracarys!

Dracarys! — gritaram eles em resposta, a mais bela palavra que já ouvira. — Dracarys! Dracarys! — E por toda a sua volta, feitores fugiam, soluçavam e morriam, e o ar poeirento encheu-se de lanças e fogo.

  1. E principalmente alguns espectadores de Game of Thrones, a adaptação das Crônicas de Gelo e Fogo para TV feita pela HBO. 

  2. Leia a entrevista (em inglês, com tradução aqui) com George R. R. Martin explicando porque escreveu o Casamento Vermelho, de quando o mesmo foi adaptado para a série da HBO. 

  3. Pelo menos para mim. Sei que muita gente deve pensar diferente.