Imagem: Marc Simonetti

Primeira resenha dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica

Capa do livro

  • Título: A Guerra dos Tronos
  • Série: As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro Um
  • Autor: George R. R. Martin
  • ISBN: 978-85-62936-52-4
  • Editora: Leya, São Paulo
  • Sinopse: Quando Eddard Stark, lorde do castelo de Winterfell, aceita a prestigiada posição de Mão do Rei oferecida pelo velho amigo, o rei Robert Baratheon, não desconfia que sua vida está prestes a ruir em sucessivas tragédias. Sabe-se que Lorde Stark aceitou a proposta porque desconfia que o dono anterior do título fora envenenado pela manipuladora rainha — uma mulher do clã Lannister. E sua intenção é proteger o rei. Mas ter como inimigo os Lannister pode ser fatal: a ambição dessa família pelo poder parece não ter limites e o rei corre grande perigo. Agora, sozinho na corte, Eddard percebe que não só o rei está em apuros, mas também ele e toda sua família.
    Quem vencerá a guerra dos tronos?

Resenha

Imponente desde antes mesmo de começar a ser lido. Essa foi a minha primeira impressão de A Guerra dos Tronos. O tamanho do grosso volume (que tem também letras miúdas) impressiona e, até certo, ponto desencoraja a leitura. Demorei muito mais evitando começar a ler o livro de 591 páginas do que levei para lê-lo por completo (o que fiz em apenas seis dias).

Quando superada a primeira impressão dada pelo tamanho, o livro impressiona novamente pela singularidade de sua narrativa. Casos de incesto, infanticídio e mais dezenas de situações moralmente ambíguas são recorrentes. Nas terras de Westeros, o fantástico convive com o vil, provendo uma veracidade ímpar para o complexo mundo criado por George R. R. Martin, o autor que, em uma tacada de mestre, nunca se referiu ao mundo dos Sete Reinos como uma realidade paralela a nossa, mostrando-o, porém, como o único e verdadeiro universo.

A grandiosidade da obra se mostra um ponto negativo nas não poucas vezes o leitor, mesmo o mais atento, se vê perdido entre a complexidade da trama e a pluralidade dos personagens, tendo que recorrer aos mapas e demais apêndices do livro, o que pode tornar a leitura relativamente cansativa. Esse efeito é marcante principalmente no início do livro, antes de o leitor se acostumar com os habitantes e configurações do mundo de Westeros.

Contudo, a narrativa tem a capacidade impedir o leitor de desgrudar do livro com suas inúmeras reviravoltas — entre as quais, nenhuma supera a audácia do autor de matar o herói da trama, Eddard. Praticamente todo capítulo termina de um modo surpreendente que nos deixa com ansiedade para saber o que vem a seguir. Esse efeito é exacerbado pela divisão da obra em capítulos relativamente curtos, cada um contado sobre o ponto de vista estrito de um personagem. Assim, para sabermos o que acontece com um personagem a seguir, é necessário atravessar a história de muitos outros personagens antes. Dessa forma, pode-se dizer que o livro não conta explicitamente uma história, mas um conjunto de histórias menores, relevantes para mover o enredo principal (a “guerra dos tronos” propriamente dita) para frente.

Essa característica, em conjunto com as descrições longas (mas muito bem feitas) e o extenso número de personagens, faz do livro complexo no momento da leitura de circunstâncias e momentos específicos, embora a estrutura geral da história consiga ser, aparentemente, transparente para o leitor. Contudo, cenas como a conversa que Arya escutou nas câmaras com os crânios de dragão permitem vislumbres de que há, sob a já complexa história apresentada, uma teia de mistérios muito mais profunda e complexa do que o ponto de vista dos protagonistas nos permite ver.

Cabe aqui um pequeno comentário quanto à tradução do título do livro. A tradução mais rigorosa para o título original da obra (A Game of Thrones) seria “O Jogo dos Tronos”, deixando mais evidente que as intrigas narradas nesse primeiro volume são muito mais sutis do que a guerra que ela irá gerar1, sendo de fato um jogo, no qual cada jogador tem um papel a desempenhar e a trapaça é permitida.

Os protagonistas que foram construídos de modo muito inteligente pelo autor. Já que o mundo de Westeros nos é apresentado pelos olhos destes personagens, não há como criar uma forte simpatia — ou, no mínimo uma empatia — por cada um deles. Desta forma, mesmo a maioria dos personagens sendo “cinzentos” e a história de A Guerra dos Tronos não se resumir a uma simples batalha entre o bem e o mal, os Stark acabam angariando, a princípio, a torcida do leitor2.

Entretanto, nenhum dos meus favoritos neste livro (Daenerys, Jon e Tyrion) ostenta o sobrenome Stark, mostrando que Martin conseguiu construir personagens realmente fascinantes. Da inocência perdida de Daenerys à astúcia sem igual de Tyrion, há espaço para todos os tipos se destacarem.

Os cavaleiros honestos em suas reluzentes armaduras não são os únicos que podem ser heróis, assim como os “lordes das trevas” com seus asseclas vestidos de negro não precisam ser os vilões. Com seus cavaleiros cruéis e criminosos vestidos de negro servindo como “o escudo que defende o reino dos homens”, A Guerra dos Tronos eleva a um novo nível a fantasia épica, em que é “escrita na linguagem dos sonhos. Ela é viva como os sonhos são vivos e vai além do que é real… Por um momento, pelo menos… Aquele momento mágico antes de acordarmos.”3

Excerto

— Exílio — disse ela. — Uma taça amarga de onde beber.

— Uma taça mais doce do que a que o seu pai serviu aos filhos de Rhaegar — Ned disse —, e mais bondosa do que merece. Seu pai e seus irmão fariam bem em ir com você. O ouro de Lorde Tywin lhe comprará conforto e contratará soldados para mantê-la em segurança. Irá precisar deles. Garanto-lhe, não importa para onde fuja, a ira de Robert a seguirá até o fim do mundo se necessário.

A rainha se levantou.

— E a minha ira, Lorde Stark? — perguntou num tom suave. Seus olhos esquadrinharam o rosto dele. — Devia ter ficado com o reino. Estava livre para quem o tomasse. Jaime contou-me como você o encontrou no Trono de Ferro no dia em que Porto Real caiu e o obrigou a cedê-lo. Esse foi o seu momento. Tudo que tinha de fazer era subir aqueles degraus e se sentar. Um erro tão triste.

— Cometi mais erros do que pode imaginar, mas este não foi um deles.

— Ah, mas foi, senhor — Cersei insistiu. — Quando se joga o jogo dos tronos, ganha-se ou morre. Não existe meio-termo.

  1. A dita “Guerra dos Cinco Reis”, que é trabalhada adequadamente nos volumes seguintes, nomeadamente em A Fúria dos Reis e em A Tormenta de Espadas

  2. Isso acontece, provavelmente, porque os Stark terem os seus como personagens pontos de vista durante a maior parte do tempo. 

  3. Essa última frase é uma citação a George R. R. Martin.