Imagem: Marc Simonetti

Segunda resenha dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica

Capa do livro

  • Título: A Fúria dos Reis
  • Série: As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro Dois
  • Autor: George R. R. Martin
  • ISBN: 978-85-8044-027-0
  • Editora: Leya, São Paulo
  • Sinopse: Um cometa vermelho como o sangue cruza o céu ameaçadoramente. E o caos reina em Winterfell. Dragões ameaçam os Sete Reinos, e clãs se dividem em busca do poder. Uma princesa se disfarça como órfã, e a magia tenta impedir a força das espadas. Uma terra onde irmão luta contra irmão, e a morte caminha na noite fria.

    Em A Fúria dos Reis nada é o que parece ser, e inocência é uma palavra que não existe.

    Quando os reis estão em guerra, a terra toda treme!

Resenha

Ainda maior que o volume anterior, A Fúria dos Reis aprofunda ainda mais os personagens e as estórias construídas ao longo de A Guerra dos Tronos. Fugindo totalmente do padrão de “vilões vs. mocinhos” e dos clichês da literatura fantástica, George R. R. Martin constrói cada personagem de maneira inteligente, sendo possível passar de amá-los a odiá-los em poucos parágrafos. Vendo o mundo do ponto de vista de seus personagens, em todos os lados da guerra, o leitor enfrenta uma torrente de emoções diferentes no virar de uma página.

Mais uma vez as descrições meticulosas tomaram conta do livro. Com mais personagens em trânsito, viajando por Westeros, mais castelos e pessoas foram conhecidos e cenários sombrios e paisagens majestosas foram introduzidas em absurda riqueza de detalhes pelo leitor.

Já na trama de trapaças e mentiras que constituem a política dos Sete Reinos, cada personagem desempenha um papel em um jogo muito maior em que é quase impossível prever os próximos passos de seus adversários e aliados incertos. Dessa vez com Tyrion servindo como Mão do Rei em Porto Real (e com um rei ainda mais ausente e incompetente do que o anterior), vemos o desenrolar dos mistérios e intrigas sob o ponto de vista de alguém que sabe as regras do jogo e até certo ponto se diverte com ele.

Contrabalançando a sordidez da política e da guerra, em A Fúria dos Reis, antigos poderes voltaram ao mundo junto com os dragões de Daenerys. Feitiços sombrios vindos de misteriosas sacerdotisas estrangeiras, magos que venceram a morte e hostes selvagens a procura de magias profundas se ergueram no mundo de Gelo e Fogo, tornando cada vez mais grandiosa a história de George R. R. Martin. A consequência imediata de este despertar da magia foi o uso do fogovivo na Batalha da Água Negra.

Contudo não passa despercebido que a tensão extrema em que A Guerra dos Tronos termina se desfez ao longo deste segundo volume. Durante a maior parte do tempo, A Fúria dos Reis serviu para mostrar os caminhos que os personagens ainda precisavam percorrer para que grandes batalhas ocorressem. Assim o livro inteiro me pareceu uma espera para algo acontecer, sendo que, das eminentes batalhas prenunciadas no volume anterior1, a única que de fato aconteceu foi a Batalha da Água Negra.

Entretanto, essa foi narrada com tamanha destreza e grandiosidade que compensou a ausência das outras lutas. Usando de diferentes pontos de vista, a Batalha da Água Negra é ponto máximo do livro. Unindo todos os elos2 do brilhante plano de defesa que Tyrion montou para a cidade (concordo com o meistre Aemon, apesar de seu tamanho, Tyrion é um gigante3). Com suas brilhantes descrições da batalha, a Água Negra perdoa o ritmo lento da história que a precede.

No entanto, até no meio da batalha — na qual Tyrion encontrou, supreendentemente coragem para lutar (e liderar) —, houve espaço para as intrigas e mistérios do jogo dos tronos, com a tentativa de assassinato de Tyrion por Sor Mandon Moore, da Guarda Real. Além disso, a aparição de Lorde Tywin acompanhado pelos Tyrell — aliança resultante do trabalho de Mindinho — surpreende e mostra que a simples vantagem numérica não é o suficiente para tomar o Trono de Ferro.

A entrada dos Greyjoy na guerra e a inesperada tomada de Winterfell também contribuíram para aumentar a tensão no último terço do livro. Com a primeira aparição das Ilhas de Ferro e seu Senhor Ceifeiro, Balon Greyjoy, e muitas informações interessantes sobre a rebelião Greyjoy durante o reinado de Robert, a introdução do ponto de vista de Theon ao livro acrescenta mais olhos para percorrer o leitor ver o Westeros a partir de todos os lados possíveis dos conflitos.

O mesmo ocorreu com a presença de Davos Seaworth, apresentando o lado de Stannis e mostrando a diversidade cultural do mundo dos Sete Reinos com a introdução da religião do R’hllor, o Senhor da Luz, a partir da sacerdotisa vermelha, Melisandre de Asshai4. Resultado da imaginação extraordinária do autor.

No entanto, do outro lado do Mar Estreito, a jovem Rainha Daenerys e seus filhos cuspidores de fogo pouco fizeram até encontrar a casa dos Imortais, onde viram muito de seu destino e das histórias que ainda aguardam os fãs das Crônicas de Gelo e Fogo.

Assim como a visita à casa dos Imortais, outros eventos (relativamente pequenos) do livro abrem caminho para histórias nos próximos volumes. (Destaca-se a moeda dada por Jaqen H’ghar a Arya e os dizeres valar morghulis.) Desta forma, o segundo volume das Crônicas de Gelo e Fogo é bem-sucedido em promover a sua sequência, terminando com excelentes ganchos para A Tormenta de Espadas.

De modo geral, posso concluir com a certeza de que George R. R. Martin conseguiu com A Fúria dos Reis continuar de modo satisfatório a história que se propôs a contar, além de abrir caminho para muitas outras aventuras que estão por vir para os seus leitores e personagens.

Excerto5

— Posso deixá-lo com pequeno enigma, Lorde Tyrion? — não esperou resposta. — Numa sala estão sentados três grandes homens: um rei, um sacerdote e um homem rico com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, um homem pequeno, de nascimento comum e sem grande inteligência. Cada um dos grandes pede a ele que mate os outros dois. “Faça isso”, diz o rei, “pois eu sou o seu governante por direito.” “Faça isso”, diz o sacerdote, “pois estou ordenando em nome dos deuses.” “Faça isso”, diz o rico, “e todo este ouro será seu.” Agora, diga-me: Quem sobrevive e quem morre?

[…]

— O poder é uma coisa curiosa, senhor. Terá, por acaso, pensado no enigma que lhe deixei naquele dia na estalagem?

— Passou pela minha cabeça uma ou duas vezes — Tyrion admitiu. — O rei, o sacerdote, o rico… Quem sobrevive e quem morre? A quem obedecerá o mercenário? É um enigma sem resposta, ou melhor, com muitas respostas. Tudo depende do homem que tem a espada.

— E, no entanto, ele não é ninguém — Varys concluiu. — Não tem coroa, nem ouro, nem o favor dos deuses, mas apenas um pedaço de aço afiado.

— Esse pedaço de aço é o poder da vida e da morte.

— Precisamente… E, no entanto, se são realmente os homens de armas que nos governam, por que fingimos que nossos reis têm o poder? Por que um homem forte com uma espada obedeceria a um rei criança como Joffrey, ou um idiota encharcado de vinho como o pai?

— Porque esses reis crianças e idiotas bêbados podem chamar outros homens fortes, com outras espadas.

— Então são esses outros homens de armas que têm o verdadeiro poder. Ou será que não? De onde vieram as suas espadas? Por que é que eles obedecem? — Varys sorriu. — Há quem diga que o conhecimento é poder. Outros, que todo o poder provém dos deuses. Outros, ainda, afirmam que deriva da lei. Mas, naquele dia, nos degraus do Septo de Baelor, nosso devoto Alto Septão, a legítima Rainha Regente e este sempre tão sabedor criado viram-se tão impotentes como qualquer sapateiro ou tanoeiro da multidão. Quem você acha que realmente matou Eddard Stark? Joffrey, que foi quem deu a ordem? Sor Ilyn Payne, que foi quem brandiu a espada? Ou… outra pessoa?

Tyrion inclinou a cabeça para o lado.

— Pretende responder ao seu maldito enigma, ou quer apenas fazer com que a minha dor de cabeça piore?

Varys sorriu.

— Eis, então. O poder reside onde os homens acreditam que reside. Nem mais, nem menos.

— Então o poder é um truque de mímica?

— Uma sombra na parede — Varys murmurou. — Mas as sombras podem matar. E, muitas vezes, um homem muito pequeno pode lançar uma sombra muito grande.

  1. Sendo em boa parte precipitação da minha parte, eu esperava já em A Fúria dos Reis, batalhas envolvendo os dragões da Daenerys, o Rei Renly atacando Porto Real ao mesmo tempo em que Stannis, e Robb Stark atacando veementemente os Lannister. Além de a Patrulha da Noite caçando os Outros.

    Ao invés disso, Robb atacou na direção contrária a que seus maiores adversários estavam, Tywin Lannister ficou mais da metade do livro parado em Harrenhall, os dragões da Danny não passam de filhotes (o que é óbvio se pensarmos bem), Stannis quase não tem um exército e Renly morreu sem nem chegar a Porto Real. Já os Outros nem apareceram. 

  2. Sim, o trocadilho é proposital. 

  3. Citação a uma frase do Meistre Aemon no primeiro livro, A Guerra dos Tronos, na página 150. 

  4. O que faz cada vez mais imaginar sobre como seria a cidade de Asshai e torcer para que ela apareça em um próximo livro das Crônicas de Gelo e Fogo. 

  5. Adaptado de dois capítulos diferentes sob o ponto da vista de Tyrion, das páginas 48, 89 e 90.