Imagem: Marc Simonetti

Quinta resenha dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica

Capa do livro

  • Título: A Dança dos Dragões
  • Série: As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro Cinco
  • Autor: George R. R. Martin
  • ISBN: 978-85-8044-481-0
  • Editora: Leya, São Paulo
  • Sinopse: O futuro dos Sete Reinos ainda é incerto — novas ameaças e inimigos surgem a cada momento.

    Além do Mar Estreito, Daenerys Targaryen, a última herdeira da Casa Targaryen, governa uma cidade construída sobre o pó e a morte. Mas seus inimigos são cada vez mais numerosos e farão de tudo para destruí-la. Enquanto isso, dois jovens embarcam em missões distintas, mas que podem mudar o destino da Mãe dos Dragões. No norte, Jon Snow — o 998º Senhor Comandante da Patrulha da Noite — fará de tudo para garantir a segurança da Muralha. Para isso, não hesitará em transformar amigos em inimigos e vice-versa.

    Traições, revelações e um fantasma do passado que volta para assombrar quando menos se espera: em todos os cantos de Westeros e de Essos, mercadores, fora da lei, meistres, reis, nobre, escravos, soldados e troca-peles estão prestes a encarar fatos inesperados. Alguns fracassarão, outros se aproveitarão das forças sombrias que crescem cada vez mais. Mas, neste momento de inquietude crescente, as marés da política e do destino levarão inevitavelmente à maior dança de todas.

Resenha

Todas as reviravoltas, aventuras épicas e jornadas heroicas que faltaram em O Festim dos Corvos voltam em carga máxima no quinto volume das Crônicas de Gelo e Fogo, A Dança dos Dragões. Com os, para mim, melhores pontos de vista da saga, o livro cinco reencontra a tensão faiscante de A Tormenta de Espadas, mas agora a transforma em fogo, fogo e sangue. Contudo, os Targaryen agora não são representados apenas por Daenerys. Aegon Targaryen, filho do príncipe Rhaegar e da princesa Elia “retorna dos mortos” para também reinvindicar o Trono de Ferro.

Mas isso nos faz levantar uma questão espinhosa: Aegon Targaryen é Aegon Targaryen mesmo? O filho de Rhaegar e Elia e legítimo herdeiro do Trono de Ferro? Além da absurda conveniência de um Targaryen reaparecer justo no momento em que os Sete Reinos estão enfraquecidos e que os dragões de Dany estão maiores do que nunca, há de ser lembrado que na visita de Daenerys à Casa dos Imortais ela viu um dragão de pantomineiro. E, em A Dança dos Dragões, Quaithe dá mais um alerta a Daenerys:

— […] As velas de vidro estão queimando. Logo virá a égua descorada e, depois dela, os outros. A lula gigante e a chama escura, o leão e o grifo, o filho do sol e o dragão do pantomineiro. Não acredite em nenhum deles. Lembre-se dos Imortais. Cuidado com o senescal perfumado. […] Daenerys, lembre-se dos Imortais. Lembre-se de quem você é.

A conclusão óbvia que podemos tirar dali é que Aegon seria esse dragão de pantomineiro, ou seja, ele não é um dragão — Targaryen — verdadeiro. Isso seria reforçado quando Quaithe pede para Dany se lembrar de quem ela é: a legítima Rainha de Westeros e Senhora dos Sete Reinos. Ela, não Aegon, seria dona deste título1. Entretanto, muitas outras interpretações são válidas, lembrando de que Varys foi um pantomineiro, de que o “Grifo” e Aegon nunca chegaram a ir até Daenerys de fato, de que a Companhia Dourada tem uma longa ligação com os Blackfyre e por aí em diante.

Contudo, de modo geral, o quinto do livro da série de George R. R. Martin é, em si, o começo da união de todas as jornadas que levam até a Mãe de Dragões. A história, mais do que nunca, é um fio de teias conectadas, em que cada ação da Rainha gera uma onda de choque sentida por todos os personagens. Brilhante, nada mais precisa ser dito.

Para encerrar o assunto dragões, merece ser destacado que foi brilhante vermos os dragões indomados. (Mesmo que isso tenha implicado em não vermos os dragões em ação a maior parte do livro, o que é um tanto desapontador em um livro chamado A Dança dos Dragões.) Depois de quatro livros em que vemos os dragões como o instrumento com o qual os heróis Targaryen do passado usaram para conquistar e manter o Trono de Ferro e que Daenerys usaria para retomá-lo e trazer paz e justiça para os Sete Reinos, somos subitamente lembrados do que centenas de outras histórias de fantasia nos ensinam: dragões são monstros.

Contudo, agora temos também Tyrion, o mais inteligente dos personagens das Crônicas de Gelo e Fogo e um dos maiores estudiosos sobre dragões nos Sete Reinos, a caminho de Meereen para servir Daenerys. (E como seria legal se ele fosse uma das cabeças do dragão, apesar de Quaithe ter alertado que a Dany não deve confiar no leão). O “gigante de Lannister” nesse livro foi trabalhado a um nível muito mais profundo do que antes. Sofrendo muito emocionalmente por ter assassinado seu pai e Shae, e subitamente sabendo que a grande tragédia de sua vida é uma ilusão, de que pelo menos uma vez foi amado, mas perdeu Tysha para uma horrível mentira, o nosso anão favorito se alterna entre os pensamentos suicidas e comportamentos autodestrutivos. Mas sem nunca deixar de ser sarcástico e espirituoso.

Mas, enquanto, todo o mundo sente o impacto do fogo e sangue que os dragões trazem, na Muralha, Jon Snow também encontra grandes desafios. Ter que andar sobre gelo fino (mais do que apenas literalmente) para agradar os dois reis em Westeros é um duelo grandioso. Mas ter que agradar seus irmãos juramentados se mostrou ainda mais difícil, como o fim do personagem provou.

Pelo menos, Jon conseguiu ter o bom-senso de notar quais os verdadeiros inimigos da Patrulha da Noite: os Outros e suas criaturas. Assim, o povo livre e os irmãos negros deixam suas antigas rivalidades de lado pelo bem maior. Muito belo e significativo, apesar de a Muralha passar intocada a ataques dos mortos-vivos durante todo o livro.

Ainda na Muralha, tivemos um capítulo sob o ponto de vista de Melisandre. Mas um único capítulo foi o suficiente para aprofundar mais do que nunca os mistérios do mundo de Gelo e Fogo. Agora sabemos que, aparentemente, R’hllor, o Senhor da Luz, realmente existe e as visões e poderes de Melisandre e dos outros sacerdotes vermelhos não são apenas truques de pantomineiro (apesar de as profecias não necessariamente estarem certas, por falha da sacerdotisa, mas não de seu deus).

Isso levanta outra questão espinhosa: quem é Azor Ahai renascido? Para mim está óbvio de que não é Stannis. Mas quem é? Para mim, todos os indícios apontam para Daenerys2 e os dragões seriam sua Luminífera, mas Jon Snow se mostrou outro forte candidato (se ele continuar vivo). Quando Melisandre pede ao Senhor um vislumbre de Azor Ahai tudo que vê é Snow. Jon também tem sonhos em que enfrenta os Outros com uma espada flamejante. Ele também pode ser o “príncipe prometido” citado por Rhaegar na visão de Daenerys na casa dos Imortais (assumindo que Jon pode ser filho do príncipe de Pedra do Dragão e Lyanna Stark3).

Enquanto todos esses mistérios se expandem cada vez mais, além da Muralha, Bran finalmente encontrou o Corvo de Três Olhos no momento mais belo e emocionante de toda a saga até o momento. Depois de três livros de sofrimento, de perder a família, os sonhos de ser cavaleiro, o lugar em que vive e tudo mais o que lhe era querido, Bran finalmente encontrou a chance de ser feliz, de abraçar o grandioso — apesar de cada vez mais sombrio — destino que sempre lhe aguardou.

No entanto, fica claro, pela primeira vez, que o destino de Bran provavelmente é muito mais sombrio e terrível do que ele e nós esperávamos. Melisandre vê Bran como o campeão do Grande Outro, assim como Azor Ahai é do Senhor da Luz4 e Brynden (o “Corvo”) dá conselhos sombrios a Bran:

— Nunca tema a escuridão, Bran. — As palavras do senhor eram acompanhadas por um suave farfalhar de madeira e folhas, a cada leve torção de sua cabeça. — As árvores mais fortes estão enraizadas nos lugares escuros da terra. A escuridão será o seu manto, seu escudo, seu leite materno. A escuridão o tornará forte.

E para completar, o guia de Bran e seus amigos até Brynden, “Mãos-Frias”, não pode atravessar a Muralha, tal qual é próprio de um monstro, como o próprio Bran conclui. Sinistro. Isso tudo praticamente destrói as minhas esperanças de Bran ser uma das cabeças do dragão e usar seus poderes warg para domar as feras de Daenerys — o que não exclui a possibilidade de Jon o fazer, isso se ele ainda estiver vivo.

Só que ainda é possível reverter a história. E se Bran foi Azor Ahai e Melisandre é que estiver entendendo tudo errado5? Em A Fúria dos Reis, sob a estrela sangrenta, quando Winterfell foi queimada e Bran renasceu da fumaça, ele vê, na pele de Verão, uma serpente alada saindo da fumaça (apesar de isso possivelmente ser apenas uma interpretação do lobo para o cometa no céu). Indo mais além, e se Bran despertar um “dragão de gelo” além da Muralha? Várias vezes em A Dança dos Dragões, esse tipo de dragão que, até onde eu me lembre, não havia sido citado antes, foi referenciado pelos personagens. Isso pode significar que veremos um desses em breve.

Ainda no Norte, mas desconectado deste lado mais fantástico, tivemos a volta de Theon, mas desta vez como Fedor. Um homem quebrado, que passou por coisas tão horríveis que até o autor se absteve de contar. Passando por loucuras e terrores nas mãos de Ramsay, Theon encontrou — pelo menos para mim — sua absolvição junto ao leitor.

Saindo deste núcleo e indo para mais próximo do encerramento do livro, vemos Sor Barristan, enquanto Daenerys permanece desaparecida, tentando fazer a coisa certa e manter as conquistas de sua jovem rainha. Adorei os capítulos sob o ponto de vista de Selmy. Neles notamos que, apesar de sua perícia sem igual com a espada, ele é apenas um homem comum querendo fazer a coisa certa, assim como a maioria das pessoas. Esse personagem até agora secundário abre muitos caminhos para os fãs se inspirarem com sua bela trajetória e modos leais.

Enquanto isso, após o ataque de Drogon à arena de luta e a partida gloriosa da rainha montada em seu dragão6, Daenerys se encontra em um dos momentos mais belos e redefinidores da trajetória da personagem. A Mãe de Dragões é confrontada pelas visões dos fantasmas de seu passado, que lhe fazem abraçar as recomendações de Quaithe, abrindo caminho para sua volta triunfante (assim espero) montada em Drogon no próximo livro.

E para coroar este livro cheio de perguntas e mistérios para serem revelados no cada vez mais próximo fim das Crônicas de Gelo e Fogo (como essa resenha dominada por teorias e interrogações comprova), A Dança dos Dragões tem um epílogo de tirar o fôlego. Sob o ponto de vista de Kevan Lannister, irmão do falecido Lorde Tywin, vemos pela primeira vez de modo nítido as intenções de Varys. Voltando arrasadoramente de só os deuses sabem qual inferno esteve escondido, a Aranha deixa claro que quer um dragão de três cabeças para governar Westeros. E não qualquer dragão, mas um que “sabe que a realeza é seu dever, que um rei deve colocar seu povo em primeiro lugar, e viver e governar para eles”.

Excerto

Ali perto, um pálido senhor, com enfeites de ébano, estava sentado, sonhando, em um ninho de raízes emaranhadas, um trono tecido de represeiros que abraçava seus membros atrofiados como uma mãe faz com o filho.

O corpo era tão esquelético e as roupas tão apodrecidas que inicialmente Bran pensou que fosse outro cadáver, um morto apoiado por tanto tempo que as raízes cresceram sobre ele, embaixo dele e através dele. A pele cadavérica do senhor era branca, exceto por uma mancha sangrenta que subia do pescoço até o rosto. O cabelo branco era fino e longo o suficiente para tocar o chão de terra. Raízes enrolavam-se em suas pernas como serpentes de madeira. Uma delas atravessava seus calções, pela carne desidratada de sua coxa, para emergir novamente do ombro. Um chumaço de folhas vermelho-escuras brotava do crânio, e cogumelos cinza salpicavam sua testa. Um pouco de pele permanecia esticada contra o rosto, dura e firme como couro branco, mas até isso estava se desgastando, e aqui e ali osso marrom e amarelo aparecia por baixo.

— Você é o corvo de três olhos? — Bran se ouviu dizendo. Um corvo de três olhos deveria ter três olhos. Ele tem só um, e é vermelho. Bran podia sentir o olho o encarando, brilhando como uma poça de sangue sob a luz da tocha. Onde o outro olho estivera, uma raiz fina crescera do buraco vazio, descendo por seu rosto, em direção ao pescoço.

— Um… corvo? — A voz do pálido senhor era seca. Os lábios moviam-se vagarosamente, como se tivessem desaprendido a formar palavras. — Certa vez, sim. Negro de trajes e negro de sangue. — As roupas que vestia estavam apodrecidas e desbotadas, manchadas com musgo e meio comidas por vermes, mas um dia tinham sido negras. — Tenho sido muitas coisas, Bran. Agora sou como você me vê, e agora entenderá por que eu não podia ir até você… exceto em sonhos. Observei-o por um longo tempo, observei-o com mil olhos e com um. Vi você nascer, e o senhor seu pai antes de você. Vi seus primeiros passos, ouvi sua primeira palavra, fiz parte de seu primeiro sonho. Estava observando quando caiu. E agora finalmente você veio até mim, Brandon Stark, embora a hora seja tardia.

— Estou aqui — disse Bran —, só que estou quebrado. Você… você vai me consertar… minhas pernas, quero dizer?

— Não — disse o pálido senhor. — Isso está além dos meus poderes.

Os olhos de Bran se encheram de lágrimas. Viemos de tão longe. A câmara ecoava com o som do rio negro.

— Você nunca andará novamente, Bran — os pálidos lábios prometeram —, mas você voará.

  1. Além de tudo isso, seria muito injusto com a Daenerys (e com os leitores) se ela não tivesse direito ao Trono de Ferro, que tanto torcemos para ela conquistar. Apesar disso, é bem o estilo de George R. R. Martin montar uma dessas para cima dos fãs. 

  2. Ela nasceu em Pedra do Dragão, o lugar do sal e da fumaça. Ela acordou os dragões de pedra sobre a estrela sangrenta. Ela até sacrificou Khal Drogo para dar vida aos dragões como o Azor Ahai sacrificou sua esposas Nissa Nissa para forjar Luminífera. 

  3. Além de que, se Jon Snow tem sangue Targaryen, é um forte candidato a uma das “três cabeças do dragão”, apesar de seu juramento como irmão da Patrulha da Noite o impedir por enquanto

  4. Se Bran for o escolhido do Grande Outro e Jon Snow for Azor Ahai, podemos ter em um futuro próximo irmão enfrentando irmão pelo destino do mundo. Um fim trágico e digno das Crônicas de Gelo e Fogo. 

  5. Existem muitas possibilidades para a identidade de Azor Ahai renascido. Leia esse texto onde as várias possibilidades são exploradas. 

  6. Brilhantemente representado na belíssima capa desenhada por Marc Simonetti, que captou perfeitamente a cena descrita por Martin. Diga-se de passagem, todas as capas das edições brasileiras das Crônicas de Gelo e Fogo são belíssimas.