Sexta resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

Quarto livro publicado e sexto na cronologia das Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata narra a volta de Eustáquio ao mundo de Nárnia e a primeira ida de sua amiga Jill para o mundo fantástico criado por C. S. Lewis, ambos convocados por Aslam — mesmo sem perceberem — para localizar o príncipe Rilian, filho perdido e herdeiro de Caspian.

No entanto, a história começa de um jeito diferente do usual: ao invés de irem diretamente para Nárnia, as crianças param no país de Aslam, além do Fim do Mundo, para receberem as instruções do próprio Leão. É interessante que esse país é mostrado no início do livro subsequente à Viagem do Peregrino da Alvorada, que narra a jornada até o Fim do Mundo.

Soprados por Aslam2 até Nárnia, as crianças encontram Caspian se despedindo de Nárnia em uma Cair Paravel rica e belamente descrita. Após contar com a ajuda das corujas, Jill e Eustáquio partem para sua aventura com a companhia de Brejeiro, um paulama (espécie original das Crônicas de Nárnia3) muito pessimista e mal-humorado, que com seu comportamento peculiar acaba ajudando as crianças a agirem melhor em sua jornada.

Nesse livro, a narrativa dá sinais que o autor construiu a história com mais profundidade que nos outros livros. Isso se mostra evidente com as amarrações de roteiro que acontecem ao longo do livro, como a ligação entre a falha em que Jill caiu ao se aproximar de Harfang e a mensagem “DEBAIXO DE MIM”4 e a feiticeira e Rilian terem passado pelo Eustáquio, Jill e Brejeiro no caminho de ida.

Um fator interessante nesse livro é que vários tópicos um pouco mais pesados foram incluídos na história, como Brejeiro e as crianças terem comido carne de um cervo falante5 e a receita morbidamente engraçada de pastelão humano. Outro ponto muito interessante é as citações a O Cavalo e seu Menino, que é o livro seguinte na ordem de publicação.

Seguindo a mensagem, Brejeiro, Eustáquio e Jill vão parar no Submundo — ou Reino Profundo — e se encontram com os terrícolas, outros acréscimos sensacionais a mitologia da série. No entanto o melhor das profundezas é a presença dos dragões e do Pai Tempo (versão narniana de Cronos, talvez) que dormem para a acordar no Fim do Mundo. No entanto faltou uma visita ao Fundo do Mundo.

Uma vez achado Rilian — muito legal o sinal para identificá-lo ser um juramento em nome de Aslam — achei que foi muito simplista a solução do problema envolvendo a feiticeira. Após uma longa e cansativa descrição do feitiço para tentar fazer Rilian, Brejeiro e as crianças dormirem — que chega dar sono no leitor — a feiticeira é morta rapidamente em uma batalha rápida e sem nada de interessante.

A Cadeira de Prata também deixa alguns mistérios sem revelar, como qual seria a última mensagem que a rainha tenta deixar para Rilian? Quais são os nove nomes de Aslam? Qual a ligação entre a cadeira de prata que manteve o príncipe amaldiçoado e as cadeiras de prata que serviam de trono em Cair Paravel no livro O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa?

A história se encerra com um contraste de alegrias e tristezas, com a sucessão da morte de Caspian e sua chegada ao país de Aslam, quando o Leão deixa claro para as crianças (e para o leitor) o destino que os aguarda em A Última Batalha: a próxima ida deles para o país de Aslam é para ficar.

Excerto

— Não está com sede? — perguntou o Leão.

— Estou morrendo de sede.

— Então, beba.

— Será que eu posso… você podia… podia arredar um pouquinho para lá enquanto eu mato a sede?

A resposta do Leão não passou de um olhar e um rosnado baixo. Era (Jill se deu conta disso ao defrontar o corpanzil) como pedir a uma montanha que saísse do seu caminho.

O delicioso murmúrio do riacho era de enlouquecer.

— Você promete não fazer… nada comigo… se eu for?

— Não prometo nada — respondeu o Leão.

A sede era tão cruel que Jill deu um passo sem querer.

— Você come meninas? — perguntou ela.

— Já devorei meninos e meninas, homens e mulheres, reis e imperadores, cidades e reinos — respondeu o Leão, sem orgulho, sem remorso, sem raiva, com a maior naturalidade.

  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Meio de transporte muito legal, diga-se de passagem. 

  3. Assim acredito, mas pode ser que essa espécie já tenha aparecido em livros de fantasia que não li. 

  4. A falha era a letra “E” da mensagem. 

  5. Em Nárnia, um caso equivalente a canibalismo.