Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Com seu ritmo lento e roteiro à primeira vista incompreensível, 2001: Uma Odisseia no Espaço é, como bem descreveu James Cameron, “um filme que não deveria funcionar, mas funciona”. E não só funciona, impressiona como poucos e faz o espectador pensar como quase nenhum. Criado conjuntamente por Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke e lançado tanto como filme quanto livro em 1968, 2001 é um filme que continua inovador até hoje, 46 anos após o seu lançamente.

Capa do filme

Narrando a interferência do misterioso Monólito – presumivelmente de origem extraterrestre – sobre a humanidade desde os seus primórdios, 2001: Uma Odisseia no Espaço difere fundamentalmente da maior parte das histórias de ficção por não ser centrado nos personagens, nem mesmo em sua própria história. O foco é a ideia que o filme apresenta, a da vida superinteligente em outros pontos do Cosmos além da Terra1, representada no Monólito, que leva o ser humano a uma constante evolução (sendo esta outra ideia importante para o filme), do primata para o homo sapiens para um homo sapiens capaz de viajar para outros planetas para, por fim, a criança estelar, o estado de evolução que somente o capitão David Bowman atingiu.

Contudo, por ser um filme centrado nas suas ideias, os personagens são unidimensionais, podendo ser substituídos por quaisquer outros personagens genéricos – com exceção, talvez, do HAL9000. O computador de bordo da Discovery é o mais “humano” dos personagens de 2001, o que mais traz empatia (especialmente na cena de sua desativação). Hal – como o filme insinua e a continuação 2010 afirma claramente – não foi o culpado pelo seu colapso.

É interessante aqui notar que foi o Monólito que deu ao homem a inteligência suficiente para criar Hal e por fim o Monólito que levou Bowman para além do infinito, salvando o capitão do mesmo Hal.

O filme também trata com capricho ímpar questões científicas importantes, como o silêncio no espaço – raramente lembrado em outros filmes do gênero2 – e o design das naves espacias, ideais para os ambientes de gravidade simulada que o filme apresenta. Destacam-se também os efeitos especiais que continuam verossímeis quase meio século após o lançamento do filme.

Sem contar com diálogos ao longo de 88 minutos, o silêncio é substituído por uma trilho sonora memorável, com destaque para a triunfal “Also sprach Zarathustra” de Richard Strauss, que entrou para o imaginário popular através de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Visto no século XXI, 2001 é único. mesmo incluindo a surreal parte final “Júpiter e além do infinito” e os vários pontos subjetivos do roteiro, 2001: Uma Odisseia no Espaço consegue ser extremamente inteligente e manter a coerência interna sob a perspectiva de cada possível interpretação do espectador.

Referências em Wall-E

Alerta: O seguinte texto contem spoilers de Wall-E.

A animação da Disney, apesar de sua temática radicalmente diferente, possui vários pontos em comum com o clássico de Kubrick.

O primeiro e mais notável é a semelhança entre HAL9000 e AUTO, o piloto automático da nave Axion. Além da semelhança física óbvia entre os dois computadores, ele têm em comum a vontade indomável de completar as suas missões, o conflito resultante de seguir ordens secretas dos governantes e o final culminando em suas desativações pelos comandantes de suas respectivas naves.

Outro ponto marcante é o uso da música “Also sprach Zarathustra” no clímax do filme de Wall-E, além da viagem de volta da Axion que lembra visualmente a sequência de “Júpiter e além do infinito”. A planta encontrada por EVA também pode ser associada – forçando um pouco a linha de raciocínio – com o Monólito, por ser o objeto motivador da história com o poder de mudar o curso da história humana.

Trailer

Ficha técnica

  • 2001: Uma Odisseia no Espaço
  • Título original: 2001: A Space Odyssey
  • Direção: Stanley Kubrick
  • Roteiro: Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke
  • Ano: 1967
  1. E além do Infinito, por assim dizer. 

  2. O exemplo mais imediato é a explosão da Estrela da Morte no episódio IV de Star Wars