Fernando Miguel Hahne

Assuntos aleatórios

Há 45 anos atrás — 20 de julho de 1969 — um homem deu pequeno passo e humanidade deu o seu maior salto. Os astronautas da Apollo deixaram na Lua uma placa, um memorial para eternidade com a seguinte mensagem:

Aqui homens do planeta Terra pela primeira vez colocaram os pés na Lua. Julho de 1969, A.D. Viemos em paz por toda humanidade.

No vídeo acima, estão registradas as atividades em solo lunar da equipe da Apollo 11. permitindo que a glória desta conquista incrível de uma espécie que há apenas meio século havia inventado o avião perdurare para sempre.

E se você não acredita em nada disso, assista esse vídeo.

Espetacular show em tributo ao Led Zeppellin no Kennedy Center Honors de 2012, com a presença dos remanescentes da banda na plateia.

Exportar biblioteca do iTunes para o Rhythmbox

Depois de uma temporada no Windows 7, retornei para o meu amado Ubuntu (na versão 14.04 LTS Trusty Tahr). Contudo, o meu período no Windows me fez gostar muito do iTunes, o player e gerenciador de música da Apple. E usando constantemente o programa acabei avaliando milhares de músicas1 e gerando estatísticas de reprodução sobre cada uma delas. E na hora de migrar para o Ubuntu não quis perder todos esses dados.

Como o iTunes não está disponível para Linux, o jeito é usar o Rhythmbox, player padrão do Ubuntu. Quanto a exportação dos dados propriamente dita, o primeiro passo é copiar todas as músicas para a pasta Música do Ubuntu. Agora localize nos seus arquivos do Windows o arquivo iTunes Music Library.xml (que deve estar localizado na pasta iTunes Media) e o copie para a sua pasta pessoal.

Depois baixe e descompacte esse arquivo na sua pasta pessoal. Agora é só executar o seguinte comando no terminal:

python iTunesToRhythm.py -w ITunes\ Music\ Library.xml ~/.local/share/rhythmbox/rhythmdb.xml

Espere a execução do script e pronto, os dados da sua biblioteca do iTunes foram transferidos para o Rhythmbox.

Referências e mais informações


  1. Literalmente. Eu tenho 2595 músicas que gerenciava pelo iTunes. 

O Cavaleiro dos Sete Reinos

Resenha do livro de contos do mesmo universo das Crônicas de Gelo e Fogo. Leia também as resenhas desta saga.


Ficha técnica

  • Título: O Cavaleiro dos Sete Reinos
  • Série: As Crônicas de Gelo e Fogo — As Aventuras de Dunk & Egg
  • Autor: George R. R. Martin
  • ISBN: 978-85-8044-973-0
  • Editora: Leya, São Paulo
  • Sinopse: Com quase dois metros de altura, Dunk era o escudeiro de um cavaleiro andante, mais conhecido pelo tamanho e força descomunais do que pela inteligência. Ao se tornar cavaleiro, resolve adotar o nome de Sor Duncan, o Alto.

    Em O Cavaleiro Andante, George R. R. Martin conta a história do primeiro encontro de Dunk e Egg, seu futuro escudeiro, e as aventuras dos dois no torneio de Vaufreixo. A narrativa de A Espada Juramentada se passa de um ano depois, quando os dois amigos estão a serviço de um cavaleiro com terras na Campina. Por fim, a história de O Cavaleiro Misterioso coloca Dunk e Egg no centro de uma conspiração para derrubar a dinastia Targaryen do Trono de Ferro.

    As aventuras de Dunk e Egg trazem para os fãs de As Crônicas de Gelo e Fogo a oportunidade única de vivenciar outro momento da história de Westeros e de conhecer e analisar fatos que teriam desdobramentos noventa anos depois, na guerra dos tronos.

Resenha

Com três contos publicados em diferentes antologias em 1998, 2003 e 2010, O Cavaleiro dos Sete Reinos é como um prequel das Crônicas de Gelo e Fogo1. Narrando os feitos de um jovem cavaleiro andante órfão, de origens humildes e sem nenhum dom em especial além de seu tamanho e força — mais um bom coração — que toma como escudeiro um menino esperto, com a língua afiada e que é bem mais do que aparenta ser. Assim Dunk e seu escudeiro Egg começam uma amizade cativante que terá impacto na história dos Sete Reinos, mesmo quase um século depois, nos tempos de A Guerra dos Tronos.

Cada um dos contos cobre um curto período de tempo e segue uma mesma estrutura, com a jornada de Dunk para algum local onde algo inesperado e grandioso acontece e colocando em confusões os dois protagonistas. E no fim um julgamento por combate decide tudo. Pronto, simples assim, sem envolver as intermináveis de interconexões e personagens infindáveis que as Crônicas de Gelo e Fogo contêm.

Entretanto, essa simplicidade deixa transparente a qualidade impecável da escrita de Martin e permitem ao leitor acompanhar uma história com um tom muito mais leve e otimista do que estamos acostumados com as histórias do mundo de gelo e fogo. Chega a ser meio esquisito acompanhar uma história de Martin com tão poucas mortes :P.

Não sendo necessário já conhecer as Crônicas para ler os contos com Dunk e Egg — o oposto também é verdadeiro — O Cavaleiro dos Sete Reinos é ideal seja para quem quer começar a se aventurar no universo criado por George R. R. Martin, seja para aqueles que já leram os cinco livros publicados da saga.

Referências nas Crônicas de Gelo e Fogo

Alerta: A partir deste ponto, o texto contem spoilers das Crônicas de Gelo e Fogo e de O Cavaleiro dos Sete Reinos.

Os dois protagonistas de O Cavaleiro dos Sete Reinos são personagens muito importantes na história de Westeros. Egg foi o Rei Aegon V, o Improvável, elevado ao trono pelo Grande Conselho, como o Senhor Comandante Mormont explica para Jon em A Fúria dos Reis. Ele ascendeu ao Trono de Ferro depois que seu irmão, o meistre Aemon — aquele mesmo da Patrulha da Noite — recusou o trono.

Também consta que uma das filhas de Egg se casou com um Baratheon e tornou-se mãe de Steffon Baratheon e, consequentemente, avó de Robert, Stannis e Renly. Dando assim um mínimo de suporte para a ascensão de Robert ao Trono de Ferro. E através das memórias de Sor Barristan Selmy também se sabe que Egg permitiu aos seus filhos escolherem suas esposas por amor, tal como ele fez, ao invés de impor casamentos arranjados. Segundo Selmy, isso levou a ressentimento e traição entre os senhores, resultando na “tragédia de Solarestival”, ainda não esclarecida na saga.

Sor Duncan, o Alto, se tornou também o Comandante da Guarda Real e foi citado em um capítulo Jaime, em A Tormenta de Espadas, quando Jaime folheia o Livro Branco. Também é citado que Sor Barristan Selmy, o Ousado, tem entre os seus feitos ter derrotado Duncan no torneio de inverno de Porto Real2.

Em O Festim dos Corvos, Brienne pinta o seu escudo com armas correspondentes às de Dunk, cujo escudo ela lembra ter visto na sala de armas do pai. Mas como o escudo de Sor Duncan foi parar em Tarth, ainda não se sabe.

No quinto volume da saga, A Dança dos Dragões, Bran tem uma visão de um cavaleiro muito alto beijando uma jovem mulher em Winterfell. Possivelmente trata-se de Duncan e a Velha Ama, podendo vir daí uma possível explicação para a altura de Hodor. E isso é complementado pelo fato de que O Cavaleiro dos Sete Reinos termina com Dunk e Egg pretendendo seguir para o Norte, para Winterfell e a Muralha. E o possível título do próximo conto é As Lobas de Winterfell3.

Os contos com Egg e Dunk, por se passarem pouco tempo depois da Rebelião Blackfyre, dão muitas informações sobre a mesma, incluindo uma descrição da Batalha do Capim Vermelho — o capim não era vermelho antes de a batalha começar — dada por Eustace no segundo conto e uma conspiração para iniciar uma nova guerra para colocar os Blackfyre no Trono de Ferro. E isso tudo inclui algumas informações sobre Brynden Rivers, o Corvo de Sangue.

Brynden Rivers foi um bastardo legitimado do Rei Aegon IV e Mylessa Blackwood. Mas na Rebelião Blackfyre ele foi apoiador dos Targaryen e foram seus arqueiros — os “Dentes de Corvo” — que mataram Daemon Blackfyre e seus dois filhos gêmeos, Aegon e Aemon, praticamente pondo fim à Rebelião.

Além da importância dos Blackfyre para a história dos Sete Reinos e o desenvolvimento futuro da saga4, Brynden Rivers tem um papel ainda maior por ser a aposta quase certeira para a identidade do Corvo de Três Olhos que chama Brandon Stark para além da Muralha.

Entre as muitas evidências que suportam essa teoria estão a descrição que Bran dá do Corvo de Três Olhos bater perfeitamente com a de Brynden Rivers: pele albina, um olho faltante, o outro olho vermelho e longos cabelos brancos. Além disso, há fato de que o próprio Corvo de Três Olhos diz que seu nome de batismo é Brynden e que o Corvo de Sangue ter sido Senhor Comandante da Patrulha da Noite — e o Corvo de Três Olhos ter sido patrulheiro:

— Um… corvo? — A voz do pálido senhor era seca. Os lábios moviam-se vagarosamente, como se tivessem desaprendido a formar palavras. — Certa vez, sim. Negro de trajes e negro de sangue. — As roupas que vestia estavam apodrecidas e desbotadas, manchadas com musgo e meio comidas por vermes, mas um dia tinham sido negras. — Tenho sido muitas coisas, Bran. Agora sou como você me vê, e agora entenderá por que eu não podia ir até você… exceto em sonhos. Observei-o por um longo tempo, observei-o com mil olhos e com um. Vi você nascer, e o senhor seu pai antes de você. Vi seus primeiros passos, ouvi sua primeira palavra, fiz parte de seu primeiro sonho. Estava observando quando caiu. E agora finalmente você veio até mim, Brandon Stark, embora a hora seja tardia.

Trecho de A Dança dos Dragões.

E para completar, Brynden foi famoso por seus poderes de feitiçaria e por saber de tudo que acontecia nos Sete Reinos. (Antes de ser Mão do Rei ele foi Mestre dos Sussurros, mesmo cargo que Varys ocupou.) Um ditado popular em Westeros dizia “Quantos olhos possui Lorde Corvo de Sangue? Mil olhos, e mais um!” Brynden é filho de Mylessa Blackwood, cuja casa vem da linhagem dos Primeiros Homens e é uma das poucas ao sul do Gargalo que cultua os antigos deuses do Norte.

Mas o que Brynden quer com Brandon e quais mistérios das Crônicas de Gelo e Fogo que as aventuras de Dunk e Egg ainda esclarecerão, só esperando para saber.

Excerto

— Aceitarei seu filho como meu escudeiro, Vossa Graça, mas não em Solarestival. Não por um ano ou dois. Ele já viu castelos suficientes, imagino. Só o aceitarei se puder levá-lo comigo para a estrada — apontou para a velha Castanha. — Ele montará meu corcel, vestirá meu manto velho e manterá minha espada afiada e minha cota de malha limpa. Dormiremos em estalagens e estábulos e, de vez em quando, nos salões de algum cavaleiro com terras ou senhor de menor importância, e talvez sob as árvores quando for necessário.

O príncipe Maekar lhe deu um olhar incrédulo.

— O julgamento abalou seu juízo, homem? Aegon é um príncipe real. O sangue do dragão. Príncipes não são feitos para dormir em valas e comer carne salgada dura. — Viu que Dunk hesitou. — O que tem medo de me dizer? Diga o que desejar, sor.

— Daeron nunca dormiu em uma vala, aposto — Dunk disse, muito baixinho. — E toda a carne que Aerion já comeu era grossa, tenra e ensanguentada, provavelmente.

Maekar Targaryen, Príncipe de Solarestival, olhou Dunk da Baixada das Pulgas por um longo tempo, a mandíbulas movendo-se em silêncio sob a barba prateada. Por fim, deu meia-volta e afastou-se, sem dizer uma palavra. Dunk o ouviu partir com seus homens. Quando se foram, o único som era o tênue zumbido das asas da libélula que voava rente sobre a água.


O menino chegou na manhã seguinte, no momento em que o sol nascia. Usava botas velhas, calção marrom, uma túnica de lã marrom e um manto velho de viagem.

— O senhor meu pai diz que tenho de servi-lo.


  1. Já vi a comparação de que o O Cavaleiro dos Sete Reinos é para as Crônicas de Gelo e Fogo o mesmo que O Hobbit é para O Senhor dos Anéis

  2. Considerando que Sor Barristan tem algo em torno de sessenta anos nas Crônicas, essa luta deve ter acontecido na juventude de Selmy e na velhice de Dunk. 

  3. Tradução livre de The She-Wolves of Winterfell

  4. Um certo dragão de pantomineiro deve aparecer (ou então já apareceu e deve ser desmascarado) nas Crônicas de Gelo e Fogo. 

O Salmão da Dúvida

Ficha técnica

  • Título: O Salmão da Dúvida
  • Autor: Douglas Adams
  • ISBN: 978-85-8041-283-3
  • Editora: Arqueiro, São Paulo.
  • Sinopse: Douglas Adams mudou a cara da ficção científica com a série interplanetária O Mochileiro das Galáxias. Infelizmente, ele fez sua própria viagem para além da Terra cedo demais, deixando milhares de fãs órfãos. Agora mais uma vez os leitores vão poder se deleitar com a sagacidade desse grande autor.

    Reunindo textos encontrados no computador de Adams após sua morte, este livro traz uma coletânea de histórias, resenhas, artigos e ensaios inéditos, além de oferecer um retrato raro da personalidade do homem por trás da obra: a devoção aos Beatles, o ateísmo radical, o entusiasmo pela tecnologia, a luta obstinada pelos animais em vias de extinção.

    Mistura de homenagem póstuma ao autor com último presente a seus fãs, O Salmão da Dúvida é profundo, excêntrico, provocante e divertido. Entre arraias-jamantas, alienígenas de duas cabeças, teorias quânticas e sinfonias de Bach, você vai encontrar:

    • Dez capítulos do livro em que ele trabalhava quando morreu.
    • Um ensaio filosófico questionando a existência de Deus.
    • Comentários sobre a constante evolução da tecnologia.
    • Um conto protagonizado por Zaphod Beeblebrox.
    • Relatos sobre sua infância, seus traumas e seu nariz.

Resenha

A última dose do humor ácido do luminar da ficção científica e semideus da cultura nerd, Douglas Adams tem nome: O Salmão da Dúvida. Contando com vários textos inéditos e muitos outros publicados pelo autor ainda em vida. Coroando essa inestimável seleção está o inacabado terceiro volume da série de Dirk Gently que possivelmente seria reestruturado como o sexto livro da “trilogia” do Mochileiro das Galáxias.

O livro começa muito bom, ainda antes de lermos qualquer coisa escrita por Adams, com a interessante das origens do livro e da forma como o editor — Peter Guzzardi — reuniu o material a partir dos 2597 arquivos do Macintosh de Adams copiados para um CD por um amigo do autor após a sua morte súbita em 2001. Depois da Nota do editor temos a introdução por Stephen Fry para o livro que “contém uma introdução simplesmente brilhante sobre o problema de escrever introduções para livros”1. Trata-se de um texto emocionante de um colega e amigo do escritor que expressa exatamente o que sentem os milhões de fãs de Douglas Adams:

Quando você lê uma frase especialmente brilhante de Adams, sua vontade é cutucar o ombro do estranho mais próximo e mostrar a ele. O estranho pode até rir e parecer gostar do que está escrito, mas você se agarra à ideia de que ele não entendeu exatamente a força e a qualidade do texto, não tanto quanto você — da mesma forma que seus amigos também não se apaixonam (graças a Deus) pela pessoa sobre a qual você não para de falar um minuto.

Depois desta excelente introdução, O Salmão da Dúvida começa com o primeiro texto publicado por Adams. A divertida carta enviada para a revista Eagle quando o escritor tinha doze anos é seguida por hilariantes histórias da infância do autor e reflexões sobre os mais variados assuntos.

Nos vários textos coletados para formar este livro, DNA deu mostras do seu vasto conhecimento nas mais diversas áreas e da sua capacidade de transformar qualquer coisa em uma piada de inteligência sobre-humana. Muito de quem era o autor, além do que ele deixa transparecer em seus livros de ficção, está visível nesse excelente livro. Desde suas ideias avançadas sobre o papel da tecnologia na vida humana até debates sobre as perguntas mais fundamentais da vida, do universo e tudo mais. Nada escapava do gênio e do humor de Douglas Adams.

Além dos textos de não ficção, o livro inclui também um conto hilariante2 protagonizado por Zaphod em algum tempo anterior às aventuras de O Guia do Mochileiro das Galáxias (provavelmente durante o mandato de Zaphod como presidente) e, dominando a parte final do livro, a obra inacabada que dá título ao livro.

Apesar de o porquê do título “O Salmão da Dúvida” permanecer uma incógnita, já que Adams nunca chegou a escrever a explicação, é possível que ele venha da lenda do “salmão da sabedoria”. Uma criatura mitológica irlandesa que adquiriu todo o conhecimento do mundo após comer nove avelãs que tinham caído no Poço da Sabedoria. Segundo a lenda, aquele que comer a sua carne, ganhará todo este conhecimento.

O Salmão da Dúvida conta a história de um insoldável mistério com várias interconexões invisíveis (que infelizmente continuarão assim) com que Dirk Gently se depara e se desenvolve de maneiras insondáveis. Isso tudo incluindo um capítulo genial — o melhor do livro em minha opinião — narrado sob o ponto de vista do rinoceronte Desmond. (Quem não se lembrou do cachalote no Guia do Mochileiro?)

Finalizado com dois epílogos (sendo um escrito por Richard Dawkins), O Salmão da Dúvida é — seja para quem já é fã de Adams, seja para quem que nunca se aventurou a ligar o gerador de improbabilidade infinita — a deliciosa sobremesa servida por esse grande chef que se foi cedo demais.


Vários textos presentes em O Salmão da Dúvida foram traduzidos (antes do lançamento do livro no Brasil) e publicados pelo site Obrigado pelos Peixes na coluna “Peixe Babel”. Vale a pena dar uma conferida.

Excerto

Biscoitos

Isto realmente aconteceu com uma pessoa de verdade e esta pessoa sou eu. Eu tinha ido pegar um trem. Era abril de 1976, em Cambridge, Reino Unido. Cheguei um pouco adiantado à estação. Tinha visto o horário do trem errado. Comprei um café, um pacote de biscoitos e um jornal para fazer palavras-cruzadas. Sentei-me a uma mesa. Quero que você visualize a cena. É muito importante que você a tenha bem clara em sua mente. Aqui está a mesa, o jornal, um café e um pacote de biscoitos. Tem um cara sentado à minha frente, um sujeito perfeitamente normal de terno e gravata e com uma valise. Não parecia que ele fosse fazer nada de estranho. O que ele fez foi o seguinte: de repente, inclinou-se para a frente, apanhou o pacote de biscoitos, abriu, tirou um e comeu.

Preciso dizer o seguinte: esse é o tipo de situação com que nós, britânicos, temos muita dificuldade de lidar. Não há nada em nossas origens, em nossa criação ou em nossa educação que nos ensine a lidar com alguém que roube seus biscoitos em plena luz do dia. Então fiz o que todo e qualquer inglês de sangue quente faria: ignorei o assunto. Olhei para o jornal, dei um gole no café, tentei resolver um enigma no jornal, não consegui fazer nada e pensei: E agora?

Acabei chegando a seguinte conclusão: Não tem nada demais, vou simplesmente pegar o meu biscoito, e me esforcei ao máximo para não notar o fato de que o pacote já estava misteriosamente aberto. Então, peguei um biscoito para mim. Pensei: Agora ele vai ver. Mas não adiantou, porque em questão de instantes o sujeito voltou a fazer a mesma coisa. Pegou outro biscoito. Por eu não ter falado nada na primeira vez, seria ainda mais difícil abordar o assunto na segunda. “Desculpe, mas não pude deixar de notar que…” Ora, não faria o menor sentido.

Comemos o pacote inteiro desse jeito. Quando digo o pacote inteiro, estou falando de uns oito biscoitos apenas, mas aquilo pareceu durar uma eternidade. Ele pegava um, eu pegava outro, ele pegava um, eu pegava outro. Finalmente, quando acabaram os biscoitos, ele se levantou e foi embora. Bem, nós chegamos a trocar olhares, mas ele se afastou e eu respirei aliviado e me recostei na cadeira.

Passados alguns instantes, o trem chegou à estação, então eu engoli o resto do café, me levantei, peguei o jornal e, debaixo dele, lá estava o pacote de biscoitos que eu tinha comprado, intacto. O que eu mais gosto nisso tudo é a sensação de que, em algum lugar da Inglaterra, há 25 anos um sujeito perfeitamente normal tem essa mesmíssima história para contar, mas sem o final surpresa.

Retirado de uma palestra à Embedded Systems, 2001


  1. Imagine a situação em que se encontra aquele que tenta escrever uma resenha desse mesmo livro :)

  2. Imagino que esse conto era ainda mais engraçado na época em que a maioria das pessoas sabia quem foi Reagan.