Fernando Miguel Hahne

Assuntos aleatórios

A Última Batalha

Sétima e última resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

No último livro das Crônicas de Nárnia, A Última Batalha — título muito apropriado — vemos o fim do mundo fantástico de Nárnia. Cheio de referências ao Apocalipse cristão, desde o começo o livro deixa bem claro que aqueles eram os “últimos dias de Nárnia” quando apresenta o maldito macaco Manhoso (que acaba fazendo o papel de um falso profeta) e o jumento — em todas as acepções do termo — Confuso que, convencido por Manhoso após acharem uma pele de Leão, se torna o falso Aslam — apesar dos gritantes sinais de alerta.

Com o mesmo clima sombrio, Tirian é caracterizado desde o início da história como o “último rei de Nárnia”. Um rei aparentemente mais sério e severo do que seus antecessores, além de menos prudente e controlado, como fica evidente ao assassinar a sangue frio os calormanos. Apesar de tudo isso, foi muito legal ver um rei que monta um unicórnio e não um cavalo. (Teria sido legal se todos os reis de Nárnia tivessem unicórnios.)

Além de um rei assassino, existem muitos outros pontos mais sombrios em A Última Batalha (o que torna o livro bem mais completo que os seus anteriores). O exemplo mais importante para a narrativa é que — pela primeira vez de forma aprofundada — foi abordada a religião dos narnianos e de seus vizinhos calormanos. É muito interessante ter sido levantada a falsa suposição de Tash2 e Aslam serem o mesmo. No entanto, a aparição de Tash — o ponto mais sombrio e assustador do livro — levanta a questão: quem (ou o que) é Tash? Um deus, um demônio?

Com a tomada de Nárnia pela Calormânia, temos a última batalha, propriamente dita, narrada. Esse é um momento muito triste e sublime do livro, ainda mais porque, pela primeira vez, uma batalha nas Crônicas de Nárnia foi narrada com relativa riqueza de detalhes.

Quanto à participação de Jill e Eustáquio, apesar de ter sido interessante a história envolvendo eles tentando ir para Nárnia, uma vez que chegaram lá não tiveram uma participação muito relevante na história, apesar de terem se mostrado corajosos e eficazes nas batalhas.

Contudo, a melhor parte do livro é a que sucede a batalha. É a noite caindo sobre Nárnia para sempre. Com a presença do gigante Tempo e dos dragões citados em A Cadeira de Prata, o mundo de Nárnia é destruído para sempre com a mesma beleza narrativa de quando foi criado. Agora todas as crianças que visitaram Nárnia — com a exceção de Susana, exclusão esta que achei desnecessária — tem novas e infindáveis aventuras para viver eternamente com Aslam e todos os heróis do passado na Nova Nárnia.

Excerto

Então o gigante levou à boca uma trombeta. Sabiam disso porque a silhueta dele contra as estrelas mudara de formato. Depois disso — mas só um pouquinho, já que o som se propaga mais devagar —, ouviram o som da trombeta, alto e terrível, se bem que de uma beleza estranha e fatal.

Imediatamente o céu ficou cheio de estrelas cadentes. Uma única estrela cadente já é algo lindo de se ver. Desta vez, porém, eram dúzias delas, e depois um monte, e depois centenas, até que mais parecia uma chuva de prata — e assim continuou, aumentando cada vez mais. Quando finalmente o espetáculo parou por um instante, alguém do grupo teve a impressão de que uma nova sombra aparecera no céu, assim como a do gigante. Agora, porém, era num lugar diferente, lá em cima, bem no “teto” do céu, por assim dizer. “Talvez seja só uma nuvem”, pensou Edmundo. De qualquer forma, naquele ponto do céu não havia estrelas, só escuridão. Entrementes, em todo lugar à volta o espetáculo de estrelas continuava. Então a marcha sem estrelas começou a crescer, espalhando-se cada vez mais, a partir do centro do céu. Agora já um quarto de todo o céu estava escuro, e depois a metade, e finalmente só se via a chuva de estrelas cadentes, lá embaixo, na linha do horizonte.

Com um misto de espanto e terror, todos subitamente estremeceram ao se darem conta do que estava realmente acontecendo. A escuridão que se propagava não era nuvem coisa nenhuma: era simplesmente um vazio. A parte negra do céu era o lugar onde já não havia mais estrelas. Todas elas estavam caindo. Aslam as chamara de volta para casa.


  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Tash é o “deus” cultuado pelos calormanos. 

Começa hoje (06/04/2014), nos Estados Unidos, a quarta temporada de Game of Thrones.

A adaptação para a TV dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo, escritos por George R. R. Martin, tem seu season premiere com o episódio Two Swords, que continua a contar as histórias de A Tormenta de Espadas.

Começa hoje (06/04/2014), nos Estados Unidos, a quarta temporada de Game of Thrones.

A adaptação para a TV dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo, escritos por George R. R. Martin, tem seu season premiere com o episódio Two Swords, que continua a contar as histórias de A Tormenta de Espadas.

A Cadeira de Prata

Sexta resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

Quarto livro publicado e sexto na cronologia das Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata narra a volta de Eustáquio ao mundo de Nárnia e a primeira ida de sua amiga Jill para o mundo fantástico criado por C. S. Lewis, ambos convocados por Aslam — mesmo sem perceberem — para localizar o príncipe Rilian, filho perdido e herdeiro de Caspian.

No entanto, a história começa de um jeito diferente do usual: ao invés de irem diretamente para Nárnia, as crianças param no país de Aslam, além do Fim do Mundo, para receberem as instruções do próprio Leão. É interessante que esse país é mostrado no início do livro subsequente à Viagem do Peregrino da Alvorada, que narra a jornada até o Fim do Mundo.

Soprados por Aslam2 até Nárnia, as crianças encontram Caspian se despedindo de Nárnia em uma Cair Paravel rica e belamente descrita. Após contar com a ajuda das corujas, Jill e Eustáquio partem para sua aventura com a companhia de Brejeiro, um paulama (espécie original das Crônicas de Nárnia3) muito pessimista e mal-humorado, que com seu comportamento peculiar acaba ajudando as crianças a agirem melhor em sua jornada.

Nesse livro, a narrativa dá sinais que o autor construiu a história com mais profundidade que nos outros livros. Isso se mostra evidente com as amarrações de roteiro que acontecem ao longo do livro, como a ligação entre a falha em que Jill caiu ao se aproximar de Harfang e a mensagem “DEBAIXO DE MIM”4 e a feiticeira e Rilian terem passado pelo Eustáquio, Jill e Brejeiro no caminho de ida.

Um fator interessante nesse livro é que vários tópicos um pouco mais pesados foram incluídos na história, como Brejeiro e as crianças terem comido carne de um cervo falante5 e a receita morbidamente engraçada de pastelão humano. Outro ponto muito interessante é as citações a O Cavalo e seu Menino, que é livro seguinte na ordem de publicação.

Seguindo a mensagem, Brejeiro, Eustáquio e Jill vão parar no Submundo — ou Reino Profundo — e se encontram com os terrícolas, outros acréscimos sensacionais a mitologia da série. No entanto o melhor das profundezas é a presença dos dragões e do Pai Tempo (versão narniana de Cronos, talvez) que dormem para a acordar no Fim do Mundo. No entanto faltou uma visita ao Fundo do Mundo.

Uma vez achado Rilian — muito legal o sinal para identificá-lo ser um juramento em nome de Aslam — achei que foi muito simplista a solução do problema envolvendo a feiticeira. Após uma longa e cansativa descrição do feitiço para tentar fazer Rilian, Brejeiro e as crianças dormirem — que chega dar sono no leitor — a feiticeira é morta rapidamente em uma batalha rápida e sem nada de interessante.

A Cadeira de Prata também deixa alguns mistérios sem revelar, como qual seria a última mensagem que a rainha tenta deixar para Rilian? Quais são os nove nomes de Aslam? Qual a ligação entre a cadeira de prata que manteve o príncipe amaldiçoado e as cadeiras de prata que serviam de trono em Cair Paravel no livro O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa?

A história se encerra com um contraste de alegrias e tristezas, com a sucessão da morte de Caspian e sua chegada ao país de Aslam, quando o Leão deixa claro para as crianças (e para o leitor) o destino que os aguarda em A Última Batalha: a próxima ida deles para o país de Aslam é para ficar.

Excerto

— Não está com sede? — perguntou o Leão.

— Estou morrendo de sede.

— Então, beba.

— Será que eu posso… você podia… podia arredar um pouquinho para lá enquanto eu mato a sede?

A resposta do Leão não passou de um olhar e um rosnado baixo. Era (Jill se deu conta disso ao defrontar o corpanzil) como pedir a uma montanha que saísse do seu caminho.

O delicioso murmúrio do riacho era de enlouquecer.

— Você promete não fazer… nada comigo… se eu for?

— Não prometo nada — respondeu o Leão.

A sede era tão cruel que Jill deu um passo sem querer.

— Você come meninas? — perguntou ela.

— Já devorei meninos e meninas, homens e mulheres, reis e imperadores, cidades e reinos — respondeu o Leão, sem orgulho, sem remorso, sem raiva, com a maior naturalidade.


  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Meio de transporte muito legal, diga-se de passagem. 

  3. Assim acredito, mas pode ser que essa espécie já tenha aparecido em livros de fantasia que não li. 

  4. A falha era a letra “E” da mensagem. 

  5. Em Nárnia, um caso equivalente a canibalismo. 

A Viagem do Peregrino da Alvorada

Quinta resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

Terceiro livro publicado e quinto na cronologia das Crônicas de Nárnia, em A Viagem do Peregrino da Alvorada, Edmundo e Lúcia vão pela última vez para o mundo de Nárnia, mas desta vez acompanhados de seu insuportável primo Eustáquio.

O “trajeto de ida” das crianças para Nárnia neste livro é o mais impensável e bem escrito de toda a saga. É interessante também eles encontrarem Caspian após o início de sua aventura, que, diferentemente dos outros livros, é simplesmente uma aventura2. Não há nenhum grande inimigo a ser batido, nenhuma ameaça sobre Nárnia, o que faz este livro especialmente interessante e permitindo acrescentar muita mitologia ao mundo de Nárnia.

Desta forma, A Viagem do Peregrino da Alvorada é um daqueles livros em que a jornada é mais importante do que o destino. Com sua primeira parada nas Ilhas Solitárias, essa jornada mostrou os aspectos menos fantásticos do mundo de Nárnia que haviam sido ignorados nos livros anteriores, como a questão da escravidão e a hilária burocracia do governo das Ilhas. Também chama atenção a inteligente estratégia criada por Bern para Caspian reconquistar as Ilhas sem um grande exército.

Das aventuras e perigos que os viajantes do Peregrino da Alvorada encontraram, destaca-se a Serpente do Mar — e esperteza de Ripchip para se livrar dela — e o lago das Águas de Ouro — ou melhor, da Água da Morte — que causou discórdia entre Caspian e Edmundo, rapidamente resolvida por Aslam.

Já no tocante aos personagens, o destaque vai para Eustáquio e a sua merecida transformação em dragão, sendo esta a primeira vez em que dragões aparecem nas Crônicas de Nárnia. A cena em que ele e o leitor notam a transformação também foi muito feita, além de bem engraçada. No entanto, o personagem passou o resto da história sem nenhuma relevância na história.

Além dos dragões, outros elementos fantásticos se mostraram muito mais presentes em A Viagem do Peregrino da Alvorada do que nos outros livros das Crônicas de Nárnia, se multiplicando conforme o navio narniano se aproximava do Fim do Mundo. É especialmente interessante a ilha com a Mesa de Aslam, incluindo o estrela Ramandu, sua filha e a faca que a Feiticeira Branca usou para matar Aslam, que lá está preservada.

Entretanto, como de costume, os pontos altos do livro foram as aparições de Aslam (mais constantes neste livro), especialmente, pela beleza do diálogo, quando Lúcia o fez aparecer com o feitiço capaz de tornar visíveis as coisas ocultas — pronunciado por ela para acabar com a invisibilidade dos hilários Monópodes (ou Tontópodes). Também chama atenção a aparição de Aslam sob a forma de um albatroz — primeira vez que ele aparece sob uma forma que não a de leão — para ajudar os narnianos a fugir da Escuridão, sendo esta a parte mais assustadora do livro.

No Mar Derradeiro — com as suas nutritivas águas doces —, as maravilhas narradas no livro alcançaram o ápice, com o Sol brilhando muito maior e com a presença do Povo do Mar. O deslumbrante Mar de Prata, o Fim do Mundo propriamente dito e, além dele, a visão do país de Aslam fecham a narrativa de modo sensacional, digno do melhor livro das Crônicas de Nárnia.

Excerto

À porta estava o próprio Aslam, o Leão, o Supremo Rei de todos os Grandes Reis. Concreto, real e quente, deixando que ela o beijasse e se escondesse na sua juba fulgurante. Pelo som cavo e trovejante que ele emitia, Lúcia ousou pensar que ronronava.

— Que bom ter vindo, Aslam!

— Estive sempre aqui. Mas você acabou me tornando visível.

— Aslam! — exclamou Lúcia, quase com reprovação. — Não brinque comigo! Como se eu fosse capaz de fazê-lo visível!

— Pois fez. Acha que eu não obedeço às minhas próprias leis? […]


  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Apesar de haver uma obrigação moral por trás da aventura: a busca pelos sete fidalgos que Miraz mandou navegar rumo ao desconhecido, conforme dito em O Príncipe Caspian

O Príncipe Caspian

Quarta resenha dos livros das Crônicas de Nárnia. Leia as outras aqui.


Alerta: O seguinte texto contem spoilers.

Ficha técnica1

  • Título: As Crônicas de Nárnia
  • Autor: Clive Staples Lewis
  • ISBN: 978-85-7827-069-8
  • Editora: WMF Martins Fontes, São Paulo.

Resenha

Segundo livro publicado e quarto na cronologia das Crônicas de Nárnia, O Príncipe Caspian narra a volta de Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia para Nárnia — chamados pela trompa mágica que antes pertenceu à rainha Susana — para ajudar o jovem príncipe Caspian a tomar o seu lugar de direito como rei.

Apesar da ida das crianças para Nárnia neste livro ter sido a mais forçada, por assim dizer, foi interessante ver a trompa da Susana em uso e notar que seu poder mágico é capaz de atingir o nosso mundo2. Ainda mais interessante foi elas terem ido parar nas ruínas de Cair Paravel — que ainda não havia aparecido de modo significativo na série.

Quanto à história de Caspian contada por Trumpkin, ela é muito interessante, apesar de contada de modo apressado — outra vez as batalhas, especialmente as que Caspian travou antes da chegada das crianças, foram muito vagamente descritas —, e deixa um ótimo gancho para a história de A Viagem do Peregrino da Alvorada3. Outro ponto interessante dessa história é a presença da astrologia como uma força relevante no mundo de Nárnia.

No tocante aos personagens, o mais legal desse livro (depois de Aslam) é o corajoso rato Ripchip. Achei muito bem sacado o conceito de que os ratos só ganharam o dom da fala depois que eles roeram as cordas de Aslam morto na mesa de pedra — em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.

Ainda sobre personagens, é interessante ver que Pedro e Susana, mais velhos, já perdendo o interesse pela magia, são os últimos a verem Aslam — sendo proibidos por este de voltarem a Nárnia. Também foi interessante ver Edmundo apoiando Lúcia, mostrando a evolução dos personagens.

Para encerrar, vale dizer que a batalha final entre as tropas da antiga Nárnia e os telmarinos foi a melhor da obra até então — assim como a lutra entre Miraz e Pedro — e chamar atenção para a melhor cena do livro: o rugido épico de Aslam, personagem tão genial que as suas aparições por si só já seriam o suficiente para fazer este livro, os outros das Crônicas de Nárnia, brilhantes.

Excerto

[…] O dia estava clareando. No oriente, perto da linha do horizonte, Aravir, a estrela da manhã de Nárnia, brilhava como um pequeno sol. Aslam, que parecia muito maior, levantou a cabeça, sacudiu a juba e rugiu.

O som, a princípio grave e vibrante como o de um órgão que se começa a tocar em nota baixa, foi-se elevando e tornando mais forte, até fazer vibrar a terra e o ar. Partindo da colina, espalhou-se pelo país todo. No acampamento de Miraz, os homens acordaram, entreolharam-se assustados e precipitaram-se para as armas. Lá embaixo, no Grande Rio, onde o frio era intenso naquela hora, as cabeças e os ombros das ninfas e a grande cabeça barbuda e coroada de junco do deus do rio emergiram da água. Mais longe, em todos os campos e nos bosques, as orelhas atentas dos coelhos saíram das tocas, as aves sonolentas retiraram as cabeças de debaixo das asas, as corujas piaram, as raposas ganiram, os porcos-espinhos grunhiram, as árvores estremeceram. Nas cidades e aldeias, as mães, com os olhos rasgados de espanto, apertaram os filhinhos ao peito, os cães latiram, os homens levantaram-se às pressas em busca de uma luz. Muito ao longe, na fronteira norte, os gigantes da montanha espreitaram pelos portões sombrios de seus castelos.

O que Lúcia e Susana viram foi uma coisa indefinida e escura que avançava para elas dos quatro pontos cardeais. Pareceu-lhes a princípio um nevoeiro negro e rastejante, depois ondas enormes de um mar negro crescendo, até que por fim compreenderam que era a floresta em marcha. Todas as árvores do mundo pareciam precipitar-se para Aslam. Mal se aproximavam, no entanto, já não eram árvores. Quando se juntaram ao redor dele, fazendo mesuras e reverências e acenando com seus braços longos e finos, o que Lúcia viu foi uma multidão de formas humanas. Pálidas bétulas-meninas balançavam a cabeça; salgueiros-mulheres afastavam os cabelos do rosto ensimesmado para olhares Aslam; faias majestosas adoravam-no imóveis; e havia carvalhos felpudos, olmos esguios e melancólicos, azevinhos desgrenhados (eles próprios escuros, mas suas mulheres lindas, enfeitadas com frutinhas), e as alegres sorveiras. Todos se inclinavam e se erguiam de novo aos gritos de “Aslam, Aslam”, nas suas vozes variadas: roucas, rangentes ou ondulantes.


  1. Referente ao volume único com todos os livros das Crônicas de Nárnia. 

  2. Apesar de a vontade de Aslam, possivelmente, ser o fator mais determinante da ida das crianças à Nárnia. 

  3. A história envolvendo os sete fidalgos, enviados por Miraz para navegar a procura de novas terras, e que nunca mais voltaram.